quarta-feira, julho 28, 2010

Momentos

Estive o dia todo sentado na minha secretária a tentar escrever. E nada.

O mais engraçado é que, como estou a escrever uma história que não é minha, estou bloqueado. Quase contrariado. Quando acabar isto vou ser um tipo feliz, e vou tentar escrever as minhas histórias, ou histórias pelas quais eu esteja apaixonado e possa acrescentar qualquer coisa.

Este post serve dois propósitos, para eu desabafar, talvez depois disto apague tudo o que tinha escrito e fique até às 7 da manhã a escrever tudo o que preciso.

Serve para falar de um momento que passei, um momento muito pessoal, que esta música me fez lembrar. Será que um dia vou querer apagar tudo isto que eu escrevo para aqui? O Pastelinho tem realmente sido um amigo fundamental para mim nos últimos tempos.



Vou buscar uma cerveja. Já venho.

Uma vez estive envolvido com uma rapariga de que não gostava especialmente. Acho que foi a rapariga que me fez ver que nunca mais podia envolver-me com alguém que não gostasse...

Tinha um fascínio visceral pelo quarto dela. Era um fascínio tão grande, mais forte do que qualquer pensamento racional. Estar deitado na cama dela, à espera que ela chegasse, a passar os olhos pelas coisas de miúda recentemente feita mulher, ou de mulher que há muito não era miúda. Ficava deitado na cama, barriga para cima, como ainda hoje espero por alguém numa cama. Pés cruzados, mãos atrás da nuca.

O que se passava a seguir é comigo e com ela. Mas no final o fascínio tinha desaparecido. Eram peluches de borbotos, fotografias espalhadas pelas paredes de gente que não me dizia respeito. Pequenas caixas e grandes caixas sem mistérios que me interessassem. Roupas espalhadas num caos estranhamento harmonioso, mas que não me divertia, enfadava-me. Sapatos alinhados, armários de sapatos. Divertia-me quando lá chegava. Quando lá chegava queria passar lá a minha vida inteira, depois, só queria fugir. Claro que eu só tinha de esperar uns minutos até me virar, olhar para ela e o fascínio voltar.

A música neste post lembra-me aquelas manhãs e tardes. Uma casa insana, pai e mãe disfuncionais. Uma miúda linda, e ela era verdadeiramente bonita. E eu nunca gostei dela. Mas descobrimo-nos um ao outro. Numa casa desconexa.

Por volta da mesma altura. Tive um professor de português, que era muito bom professor, tinha um talento enorme para ensinar pessoas a estruturar os pensamentos em escrita, quase de uma forma infalível. Conheci a escrita de duas alunas dele, produtos da sua escola, e elas eram realmente muito claras naquilo que escreviam. Eu não lhe deu um minuto de atenção. Ele retribuía-me da mesma forma. Sempre nos entendemos.

Numa das suas aulas. Já farto da atenção que a maioria dos alunos, como eu, lhe davam. Parou a lição e começou e ensinar as pessoas as melhores maneiras de se suicidarem.

Dois lápis enfiados no nariz, com as pontas para cima, e sentados com um movimento rápido de cabeça faríamos a vénia à vida e pediríamos licença para morrer. Revelou-se no fim da lição como a melhor maneira de estalar. Os comprimidos não eram eficazes, como o comprovou um amigo nosso, aos 16 anos já tínhamos algumas histórias de tentativas de suicídio, auto-mutilação, e risco pelo perigo desconhecido. Éramos muito deprimidos àquela idade, mais ou menos como hoje, os que sobreviveram, que foram a esmagadora maioria, os que não se queimaram, que foi uma maioria menor, ou os que não alteraram completamente a personalidade que foi uma minoria, cada vez mais escassa. Esse poucos mantêm a crónica depressão.

Outras formas de suicídio que não resultavam seriam a cabeça no fogão. Também comprovado por outro colega, que já tinha tentado, e que tinha sido apanhado pela mãe, justificando que estava a ver se o bico funcionava. Atirar da ponte seria uma chatice, caso a meio um gajo se arrependesse. O metro era uma opção, mas já sabemos a maçada que isso causa aos que usam os túneis para ir onde precisam. O enforcamento demasiado medieval, e ao contrário do que se pensa pouco eficaz.

Cortar os pulsos seria demasiado torturante. Para lá da quantidade de histórias de gente que conhecíamos com as famosas cicatrizes. Ou seja, não era do mais eficaz.

Correr com umas tesouras na mão, resultava com putos, podia ser uma boa alternativa. Quase acidental.

Com esta aula desenvolvi vários hábitos. Contemplei sempre o suicídio como um acto divertido. Sempre que entregava um teste de português imaginava o professor a pegar em dois lápis, e a ler um meu teste em pranto, hesitando se se atirava de cabeça ou não. Com os dois lápis a enfiarem-se no crânio, poupando-lhe logo ali ele ter de corrigir aquela desgraça. Em alturas de maior depressão olho para certos sítios de maneira diferente. Um parque infantil, com o escorrega, o baloiço, o cavalinho de madeira, tudo aquilo oferece múltiplas formas de suicídio.

E o que uma música de dois minutos não nos faz lembrar. Lígia, se conseguiste ler este até ao fim, és a maior. Mãe, isto aqui é tudo a brincar, sim? Beijocas às duas.

Quando era puto era o rei de Carrot Flower.

3 comentários:

Maria disse...

Miguel,

Espero, sinceramente, que não apagues nada do que escreveste até agora.
Quanto ao resto são experiências de vida :), que nos moldam.
O meu blogue ampara-me, posso escrever as maiores barbaridades, mas são minhas. Lembro-me de um comentador anónimo ter escrito "Sentiste a necessidade de desabafar tudo isso num espaço virtual? :s ".
Ao que eu respondi que aquele espaço era meu e de seu nome Devaneios.

Miguel Bordalo disse...

Foi só porque este era para ser um pouco mais pessoal. Acabou até por ser discreto. Mesmo assim...

E eu sei bem o que são os famosos provedores dos blogues. São uns bichos irritantes!

Maria disse...

Miguel aquilo nem com dum dum, nem Bio Kill lá vai.
Haja liberdade, para escrever e comentar. O que me irrita são os que implicam com tudo... mas não deixam de ler hehe. Quem não gosta coloca à beirinha do prato. Devem ser masoquistas.

Pareceu-me pessoal, quanto baste! Há dias em que nós dá para isso. Lava a alma, tal como a água do mar, é o que costumo dizer!

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