sexta-feira, novembro 05, 2010

1º Para PS com vigor

Ora eu estive a trabalhar umas duas semanas no Quiksilver Pro na Ericeira, e já trabalhei muitas vezes em campeonatos, mas nunca na minha vida tinha feito, produção, não no termo mais puro da palavra produção. Um obral, um tipo que recebe ordens e cumpre.

A dada altura o Paulo ROsa, o meu patrão nesses 15 dias, virou-se e disse-me - "Miguel, vai estacar aquela tenta, é em pedra, tens de fazer umas estacas". Tinha-se comprado uns ferros maciços e era preciso cortar ferro. Avancei para o trabalho... temeroso, para não dizer que estava todo borrado, porque não seria muito macholas. A verdade é que teria de usar uma rebarbadora.

Para quem não sabe, não tem o nível de masculinidade avançado, uma rebarbadora é uma ferramenta com um disco que corta ferro. Só que, alguns dos mais terríveis acidentes na construção civil, que não envolvem choques eléctricos, envolvem - rebarbadoras. Aquilo consegue cortar uma perna de um lado ao outro em três segundos, numa mão inexperiente como a minha! Dedos então, é mel! A rebarbadora nem peças de protecção tinha! Diga-se de passagem.

Peguei na rebarbadora, sem nunca ter pegado numa antes, prendi o ferro debaixo do meu pé, e liguei a rebarbadora. Um som descontroladamente assustador envolveu toda a zona circundante. A adrenalina saltava-me pelos olhos, os músculos estavam rígidos, tão rígidos que não me conseguia mexer. Ao longe um membro mais experiente da produção, o António, viu-me naquele preparos, a chorar adrenalina, que se aproximou de mim e disse, num tom grave, mas sendo ele de Viseu, sempre um pouco cómico - "Calmamente desliga isso, que eu ensino." E lá explicou, que era preciso mão firme! Mão firme! Depois de o ver a fazer um pouco, pode fazer as restantes estacas, a cortar ferro! A sentir-me cada vez mais macho a cada barra de ferro cortada a meio e depois afiada na ponta, como uma lança. Senti-me mais primitivo e, no entanto, mais evoluído também! O poder de fazer uma lança! De construir uma estaca! De estacar uma tenda à pedra, com uma marreta!



No final de um dia de produção, é a única altura que eu consigo ouvir AC/DC sem praguejar aos céus a minha sorte! E com alguma sorte, se não aparecesse o tipo do surf camp a chorar, (e esse nunca usou uma rebarbadora), lá púnhamos nós um AC/DCzinho só para vibrar um pouco com a nossa masculinidade!

No dia seguinte a ter feito uma seis estacas com a rebarbadora, lá me pediram para fazer mais. Cheio de confiança lá fui eu. Peguei na ferramenta e o disco da rebarbadora rebentou-me na cara. Aquilo fez-me umas cócegas se tanto, mas deu tema de conversa, ao que um outro tipo da produção, me disse "Epá, mas estavas a fazer essa merda sem uma protecção para os olhos?" Do fundo da minha masculinidade respondi "Foda-se! Claro!" O tipo olhou para mim com olhos meio esbugalhados e responde a medo "Ouvi dizer que se uma daquelas fagulhas entra para o teu olho, tens de ir para o hospital, e que eles te tiram aquilo com um íman!" Virei-me para outro tipo da produção que estava para ali a passar e pedi-lhe gentilmente os óculos. Para quê, perguntou ele. Já tinha com os óculos na minha mão. Para mexer na rebarbadora! Respondi. Deu um pulo! E assustado, tirou-me os óculos da mão como se estivesse a tirar-me um bébé de três meses da posse de um louco descontrolado. "Então uns óculos da &%$/&%$?!?! Para isso? É que nem pensar!"



Andei o resto do campeonato a fechar muito os olhos, e a olhar muito pouco para as estacas que cortava... ou então a passar a tarefa para outro colega de profissão. Macholas, macholas tudo bem. Mas cego é que não quero ficar! Já óculos de marca não tenho, nem sei marcas dessas merdas, já me esqueci, o que aumenta os níveis da minha masculinidade, não? (às duas pessoas que conseguiram ler isto até ao fim.)

4 comentários:

savóias disse...

isto não é um post macho, é um post paneleirote.

Miguel Bordalo disse...

Que comentário tão prosaico... Eu cá vou continuando a tentar!

Maria disse...

Após ter lido este post, pego no livro do momento e leio um parágrafo a que achei muita piada, em parte porque me recordei do que tinha lido aqui momentos antes, que passo a transcrever:


When I look at the row of blades, the Gatekeeper smiles with satisfaction, attentivelly following my gaze.
"Careful, one touch can cut," says the Gatekeeper, pointing a stocky finger at his arsenal. " These are not toys. I made them all, hammered each one out. I was a blacksmith, and this is my handiwork. Good grip, perfect balance. Not easy to match a handle to a blade. Here, hold one. But be careful about the blade."

Sempre tive um pouco de inveja de quem conseguia criar algo com as mãos, eu não tenho jeito nenhum. Nem para fazer aqueles trabalhos manuais no ciclo.

Mesmo não tendo esses dotes sei que é necessário ter em atenção à forma correcta de usar as ferramentas, a meu ver não é sinal de masculinidade usa-las de forma leviana. ( sim, parece sermão de mãezinha)

Mas, dito isto, acho que deves sentir muito orgulho de teres participado no evento e saber que o fruto de teu trabalho ajudou a segurar uma tenda.

Dispensava a música dos ACDC...

Miguel Bordalo disse...

Gostei de fazer o campeonato, sem dúvida. Aprendi muita coisa.

Jà a música dos AC/DC - eu também...

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