quarta-feira, junho 30, 2010

Uma música quase todos os dias 24

Novamente a passear por uma discoteca algures no início dos anos 2000, ouvi uma voz que me despertou a atenção. Perguntei a uma rapariga loira ao balcão, muito gira, que se fartou de me vender discos, mas que me vendia o último como se fosse o primeiro, sem um único indicio de me reconhecer. O que para mim era óptimo, não sou adepto de simpatias de circunstância, apesar de ser um mestre nelas. Quando me dispensam, aplaudo.

Perguntei à rapariga que me disse - Lisa Ekdahl - e continuou com aquela cara inócua, que lhe fazia um rosto bonito, mas com uma alma desinteressante. Abatida. Peguei no CD, que na altura havia expositores da música que passava na loja. Hoje as fancs que habito não têm nada disso. Ouvi mais uma ou outra e levei o disco comigo.

Desde aí que tenho acompanhado a carreira da sueca, sempre desconfiado que se comece a desgraçar como a Diana Krall. Isto porque eu tenho o grande defeito de conseguir ouvir poucas mulheres a cantar Jazz, sendo que a Billie Holiday me estragou para outras cantoras, mas até tolerava a Diana, antes de começar a fazer duetos suspeitos, e covers altamente suspeitos!

A Lisa é que não tem culpa disto, e consegue fazer esquecer um bocadinho a versão do Nat King Cole do Nature Boy. Mas só uns segundos! Que o Nat King Cole é intocável!





E quebrando a regra deste espaço, uma das versões do Nat King Cole:



É um bocadinho injusto... eu sei...

Post dedicado à minha amiga da Feira das Vaidades. Não falhei!

terça-feira, junho 29, 2010

Agora é assim

Ronaldo foi, provavelmente, o único grande jogador de uma equipa no Mundial com uma posição fixa no terreno – "agora és extremo", "agora és ponta-de-lança", apontava o Professor entre as suas frases de efeito (mas ao contrário). E na verdade, estando, tão definidamente e tão concretamente, um pouco por todo o lado, Cristiano não esteve em lugar algum neste Mundial. Zero à esquerda, zero à direita e zero ao centro. Zero, sobretudo, para Carlos Queiroz que não soube montar uma equipa em torno do seu grande jogador mas antes amarrá-lo a posições fictícias, dignas de um Danny ou de um Hugo Almeida, nunca de um Ronaldo .
Em grande estiveram Coentrão e Eduardo, numa equipa cujo carácter se define ao minuto 72 do jogo de hoje quando, depois do golo espanhol, alguém se lembra de colocar em jogo Pedro Mendes para "equilibrar" o meio-campo. Bravo.

Ainda pensei que hoje víssemos os jogadores de Portugal a ignorarem por completo todas as instruções do Professor, assumindo uma postura revoltosa, digna de qualquer embate contra Espanha, enfrentando o jogo de peito aberto, a sofreram um golo mas a sofrerem-no porque tentavam, de modo profundamente sofredor, marcar, qualquer coisa de minimamente apaixonante – mas nada. Agora que acabou, todos os olhares, sempre histéricos, sempre deprimidos, se vão voltar para Ronaldo – cuja infelicidade foi apenas ter sido fiel ao seu treinador. Sim, a Ronaldo faltou ser mais Ronaldo, aquele que adora fintar e marcar golos como se jogasse sozinho, e ser menos o capitão, o ícone, a marca e o vendedor de chuteiras e de sonhos a meninas suburbanas. Mas, sobretudo, faltou a Ronaldo mandar o Professor Carlos Queiroz à merda.

Na semana passada Maradona disse que nem sequer dizia a Messi onde jogar – “ele já é homenzinho”, disse Deus. E, na verdade, tem-se visto Messi um pouco por toda a parte, abraçado por uma equipa de loucos em que até uma defesa descerebrada carrega sobre o meio-campo adversário como se o amanhã tivesse sido anteontem. E caindo, dançando, tabelando nas pernas dos adversários – um feito só ao alcance dos predestinados, coisa de génio – encantando, lá segue Messi a inspirar os seus amigos que, seja como for, vão atrás dele, acreditam, correm, fintam, chutam e marcam para depois festejarem como se aquela fosse a última festa da sua vida, transformando a anarquia alegre de Maradona numa indústria criativa de sucesso.
Enfim, quem gosta de futebol e quem é do Benfica - o que é a mesma coisa - pode agora voltar ao lugar onde é feliz neste Mundial: a apoiar a Argentina. E contra a Alemanha, sobretudo tudo contra a Alemanha. Essa é, verdadeiramente, a equipa de todos nosotros.

Shirin



Na semana passada fui ver "Shirin", um filme maravilhoso cuja história se exprime nos rostos de 114 mulheres que traduzem a representação teatral de um poema persa do séc.XII – “Khosrow e Shirin”. Contei cinco pessoas a saírem a meio – a um quarto? a um terço? – do filme. É que é um filme incrível mas também seria absurdo dizer que não é difícil de ver. Vale a pena? Cada minuto.

Poucos dias depois fiz uma coisa que já não fazia há algum tempo: uma sesta depois do surf. Com um sono muito leve e intermitente, no limite do desperto mas suficientemente mergulhado em sal para poder descansar tranquilamente. Lá fora, o ruído das pessoas, na rua, nos cafés - o som da bola. Começava a jogar-se o Portugal-Brasil. Eu sem televisão, sem rádio, sem notícias, sem nada. Apenas lá fora, o ruído das pessoas, na rua, nos cafés - o som da bola. Pareceu-me, por tudo e mais alguma coisa, que Portugal tinha ganho o jogo.
Foi um "Shirin" sonoro, um teatro ruidoso, com altos e baixos incessantes – euforia e silêncio, silêncio e euforia – que a minha sesta foi aveludando, enquanto tentava interpretar o que se passava. Foi uma experiência interessante cuja memória foi ligeiramente beliscada – mas só ligeiramente – no momento em que soube, mais tarde, o resultado do jogo.

Hoje é dia de Portugal-Espanha. Um jogo que me interessa um pouco mais porque não é a feijões, como o jogo com o Brasil. Detesto coisas a feijões. Nem me levanto da cama se for para ser um dia a feijões – a menos que feijões sejam ondas e uma boa sesta, claro.
Dizia eu, hoje o jogo não é a feijões – porque são os oitavos-de-final de um Campeonato do Mundo e jogamos contra a Espanha. E contra a Espanha nada, nunca, é feijões. Não pode ser. Aparentemente, também não vão estar ondas decentes – a hora, em teoria, seria perfeita - pelo que tudo se conjuga para que possa ver o jogo sem qualquer peso na consciência.
Seria também bom que hoje não começássemos a desistir desta história a meio – a um quarto? a um terço ? – do jogo, como aliás, tem acontecido comigo e com esta equipa de Portugal mais vezes, muito mais vezes, do que o desejável.
Não sei se vamos ganhar ou não mas há só uma coisa que peço: que valha a pena. Cada minuto.

segunda-feira, junho 28, 2010

Uma música quase todos os dias 23

Um dia destes estava eu num dos meus périplos em busca de música nova, e fui dar com um disco acabado de lançar, Loop Less, estava na capa. Ouvi dois temas e comprei. Na altura comprava cds mais facilmente do que compro hoje em dia, que o dinheiro agora aperta muito mais, mas quando cheguei a casa, dei o meu dinheiro por muito bem gasto. Loopless foi um oásis, num deserto da música feita em Portugal. Aquilo nada tinha a ver com música portuguesa, mas o que eles faziam estava muito bem feito mesmo.

A Kika Santos com aquele vozeirão usado num ambiente de excelência, foi muito bom ouví-la assim. Mas a música que eu escolheria para colocar aqui seria o Mashairi For Upendo. "Dá-lhe vida - minha voz - outras vozes - vamos fazer mulatos..." Cantada pelo Kalaf, um dos conhecidos vocalistas daquela banda de cu duro ocidental. Muito dancei eu com eles uma certa noite na Reitoria...



Como não se encontra facilmente, ficamos com a outra música em que não canta só a Kika Santos. Desert Crossing Song. É uma música que cresce até a um momento em que Cys, a cantora convidada, já rodeada pelo ambiente avassalador diz - isto é lindo! E é mesmo.

sábado, junho 26, 2010

Páginas do meu diário



Hoje acordei cedo, e atravessei a cidade às 8 da manhã, já me tinha esquecido como é bom acordar cedo, normalmente para ir surfar, e aproveitar a melhor parte do dia, quando a temperatura ainda não atingiu aquele calor insuportável, quando ainda está uma ligeira humidade visível no ar, a cidade ainda não está agitada e respira bem. A respiração é subvalorizada...

Esta semana dormi bem, melhor do que dormia em meses, recomecei a fazer exercício, e hoje de manhã não fui o tipo a voltar às 8 da manhã de uma discoteca do Cais do Sodré. Apesar de ter dormido três horas, fui o tipo que acordou fresco, e foi passear os cães, com um ligeiro sorriso na cara. Fresco e bem consciente do que me envolvia.



Hoje ao atravessar a cidade a banda sonora foi Bjork. A Bjork faz-me sempre lembrar a minha antiga namorada. Ela foi delicada o suficiente para depois de 10 anos de namoro me ter levado apenas os discos da Bjork. Ela gostava mais do que eu, e os discos eram efectivamente dela, porque se os tinha era por causa dela. Hoje, ao ouvir a islandesa no carro decidi que ia por os seus cds na minha lista do Amazon. Trazem-me boas recordações, e uma pessoa gosta sempre de voltar aos sítios onde foi feliz, como eu nunca voltaria para alguém com quem não consegui que resultasse, resta-me os espaços em comum. Acho que vou passar o dia a ouvir Bjork.



Este texto não foi necessariamente escrito hoje. Ou foi. Pronto foi. Que me perdoe.

terça-feira, junho 22, 2010

Não é uma viagem qualquer

O nosso amigo João fartou-se de estar enfiado num escritório a contar números e fez-se ao mundo. Vai relatar a experiência de viajar durante 15 meses, 51 países, aqui. Para ir acompanhando, quem o conhece e quem não o conhece também.

Uma música quase todos os dias 23

Quis O Homem voltou do Zeca Afonso, mas não encontro no Youtube, queria a canção com lágrimas do Adriano Correia de Oliveira e também não há... no caso do Zeca tenho um pouco de medo de dizer para comprarem o CD, tenho muito medo para onde esse dinheiro vai parar... no caso do Adriano não estou bem informado...

Passemos então para - Jazz! A minha Billie Holiday tinha de passar por aqui, e com isto a fechar... a quantidade de coisas boas que ela tem, aquela voz trespassada por uma vida de socalcos, desgostos, vícios, más companhias, poucas boas companhias, momentos de glórias, vários momentos de dor, desgraça, tristeza. E uma voz, só a voz, que transmite tudo isso e mais, e mostra tudo, e vai ao fundo da alma, e toca-a, e toca em tudo o que atinge como uma recordação para toda a vida, como um vício que se tornou numa função corporal, adoro respirar Billie Holiday.



Nem escolhi a música, foi a primeira que vi dela, qualquer uma serve. Qualquer uma mesmo. Terá de ser a voz feminina que mais ouvi na vida. Não vivo sem a ouvir.

Quem nos impressiona uma vez

Impressiona-nos mais que muitas.

Não sei. Por vezes é assim não é?

A nossa amiga Lígia Paz escreve pouco em blogues, apesar de os ter um pouco espalhados por toda a parte. Mas quando escreve é indispensável ler. Mais uma vez... em jeito de desabafo - ufff...

sábado, junho 19, 2010

A arte está mais pobre

Hoje desapareceu o maior escritor de todos os tempos. É pelo menos o meu favorito. O escritor que eu mais gosto de ler. O escritor que me deu uma perspectiva diferente da literatura, onde a criatividade e a liberdade tomam a linha da frente. Criatividade e liberdade no conteúdo e na forma.

Desapareceu Saramago.

Já li alguns livros do Saramago, e até aos meus 33 anos, imagino que lerei praticamente todos. Há um livro em especial que me marcou. Costumo dizer que não é bem um livro, é uma experiência, foi o único livro com quem eu fiquei chateado, como se o livro tivesse vida. Pousei-o na minha escrivaninha e não lhe toquei durante umas semanas. Genuinamente furioso com o que estava escrito. Senti um livro como nunca tinha sentido na vida. Até que já reconciliado com a inevitabilidade do que iria acontecer, peguei-lhe e li-o numa noite.

Com o Saramago eu ri, com o Saramago eu chorei. Com o Saramago recuperei de um namoro de 11 anos que falhou no último ano, ao ler o Evangelho Segundo Jesus Cristo, porque me deu vontade de voltar para a cama novamente, nem que fosse para ler até ficar com sono.

Com o Saramago fiquei revoltado, com o Saramago relaxei. Com o Saramago escrevi melhor do que escrevia antes de o ler. Um dia a revista onde eu trabalhei decidiu pôr cobro à minha desorganização e contratou uma editora executiva, para auxiliar o editor (eu). Escrevi depois a minha crónica mensal que era um elogio escondido ao Saramago, porque era uma revista de surf e as coisas tinham de ser mais ou menos a propósito, apesar de toda a liberdade que sempre me deram, verdade seja dita. A editora executiva, que era muito boa rapariga, achou que letra grande depois de uma vírgula em várias zonas do texto era algum tipo de gralha permanente e que a pontuação estava toda estranha, e retirou-me as letras grandes depois das vírgulas, acrescentando aqui e ali alguns pontos. Sò descobri depois de editada que não tinha grande sentido o texto que tinha acabado de escrever. Os meus leitores habituais não devem ter estranhado, no entanto.

O Saramago já me levou a viajar. O Saramago já me levou a reflectir. O Saramago já me levou a tomar a opção de nunca tentar conhecer aquelas pessoas de que nós gostamos mesmo através da arte. Fui para a festa do Avante um dia e encontrei O Urbano Tavares Rodrigues, que deve ter passado um mau dia hoje com a notícia. Os meus pais conhecem o Urbano, que é uma das pessoas mais maravilhosas que eu conheci na minha vida, e um fabuloso escritor também. Ele reconheceu-me e eu fui cumprimentá-lo, só depois reparei que quem estava ao seu lado era o Saramago. Eu fiquei um pouco atrapalhado com dois gigantes da literatura à minha frente, e cumprimentei-o também. Ele cumprimentou-me de volta sem sorrir, voltou-se para o Urbano e com um sorriso leve perguntou - Vamos? - Fiquei sem saber se os acompanhava um bocado, ou se me despedia logo ali. O Urbano pediu-me para eu o seguir para continuarmos a trocar umas palavras. Fiquei uns vinte minutos a passear com os dois. O Urbano a contar-nos uma história, daquela maneira que só ele conta, o Saramago ria-se comedido, eu ria-me como podia. Chegados ao espaço cultural despedi-me. O Saramago fez-me o seu primeiro sorriso directo, aquele seu riso invertido, um riso com os olhos, mais do que com a boca, dei-lhe um passou-bem, dei um abraço ao Urbano e fui-me embora. Nos dias seguintes pensei na forma diferente dos dois. Como o Saramago tinha sido tão sério, e cheguei a ficar um pouco indignado. Hoje em dia rio-me da minha avaliação de uma pessoa por vinte minutos, principalmente uma pessoa avaliada a cada vinte minutos da sua vida por todos os que lhe passam à frente. Nunca se devem conhecer os nossos heróis, porque criamos uma imagem deles pelo que fazem, e essa imagem nunca corresponde àquilo que eles são como pessoas. Não que ele fosse uma má pessoa, para saber isso tinha de o conhecer bem mais de vinte minutos. Mas para ser amigo do Urbano, tem mesmo é de ser muito boa pessoa, só pode.

E quando li o Memorial do Convento, e penei nas primeiras quarenta páginas, durante quase três semanas, para depois não conseguir parar de ler durante três dias para terminar o livro, fui visitar Mafra, e preferia que nunca ninguém me dissesse qual é era a tal pedra. Que eu no livro imaginava-a como um prédio. Com todo aquele caminho, toda aquela luta, toda aquela surpresa...

Ilusões, fantasias, metáforas, leituras da realidade... os livros, e a música, são as duas formas de arte mais completas, porque deixam-nos recriar os mundos criados, e eu nunca senti tanto isso como ao ler um livro do Saramago.

Ps: E depois o meu avô Álvaro adorava-o, a minha mãe também, e o meu pai já agora, gosta muito de o ler também. Por todas as coisas que o Saramago me ofereceu, com os seus livros, ofereceu-me uns tempos bem passados a discutir "Saramago" com três das pessoas mais importantes da minha vida. Alguns momentos que recordarei para sempre, como o meu pai a contar-me a história dos porcos do Evangelho segundo Jesus Cristo. Com o meu avô e a minha mãe a rirem-se com outras histórias, a minha mãe a elogiá-lo de louco, o meu avó a obrigar-me a reler alguns dos seus livros sobre uma perspectiva diferente. Lê, mas lê a pensar nisto! É um escritor que nos faz falar, sonhar e criar. Olhar para nós, olhar para os outros e olhar para o mundo como um produto da humanidade.

sexta-feira, junho 18, 2010

Terminou

Terminou a época da NBA. A vitória foi para os Lakers, num jogo simplesmente horrível a nível de ataque, brilhante a nível defensivo. Cinco e um quarto da manhã e valeu bem a pena. O defeito de gostar de NBA é ter de ficar à espera durante largos meses para ver tudo novamente.

Feriados

É realmente engraçado achar-se que o pessoal tem de ter um dia de descanso quando o Papa vem cá a meio da semana, e que não se permita que se façam pontes com o 25 de Abril, porque há que ter vergonha, é preciso trabalhar.

Eu não sou nada adepto da famosa frase - Agora não vamos discutir isso, porque há coisas mais importantes a tratar - muito em voga para despachar questões de minorias para a frente, sempre para a frente.

Mas o que eu acho que é realmente uma perda de tempo, é discutir demagogias! Terminar com pontes? A ponte é algum feriado oficial? Anda tudo a brincar.

Com a história dos feriados que não são feriados, a história de uma imensidão de gente que está mal, aflita, sem futuro à frente, e que perdem apoios estatais foi para segundo plano. Com o sistema estabelecido a ir buscar o dinheiro sempre, mas sempre aos mesmos.

Uma música quase todos os dias 22

A última de Miles Davis.



Se há frases perfeitas, há títulos perfeitos - It never entered my mind - será um título perfeito, mas mais perfeita é a versão do Miles Davis dela. É uma música que nos entende estejamos tristes, contentes ou apáticos.

É a música que já fui nossa, dela, e só minha. De outros e agora vossa.

quarta-feira, junho 16, 2010

Desporto à séria!



Estive ontem até às cinco da manhã a ver o maior espectáculo no mundo. Ver tipos sobre-humanos a fazeres coisas como as do vídeo. Acho que nunca tinha visto alguém saltar tão alto... É por todas as razões e mais algumas o melhor espectáculo desportivo à face da terra. (Excepto, claro está, ir ao estádio da luz ver o Benfica.) Termina na quinta-feira com um jogo sete.

E agora?




Somprem lá na Vuvuzela agora!

terça-feira, junho 15, 2010

Uma música quase todos os dias 21

Cometi um erro crucial. Fatídico, diria. Devia ter fechado este rubrica logo no outro dia. Agora tenho um manancial de músicas que quero pôr aqui e não posso, só tenho mais cinco tiros... enfim. É muita pressão...

Hoje decidi-me por um bocadinho de Massive Attack. E pensei, ponho a minha favorita, ou aquela que eu mais ouço? O musicão, ou a música que chega ao seu ponto como nenhuma? Decidi-me pela segunda. A minha favorita que é um hino às mulheres dos anos 90, fica de fora.



A minha escolhida é esta. Porque é simplesmente a minha visão da relação entre um casal, porque eu acho que a magia de que muita gente fala não passa de um truque de cartas, que mais tarde ou mais cedo vamos ver que é uma aldrabice. Que a chama é um calorsinho que se apaga. E por aí fora.

Ao contrário dos Radiohead que têm músicas fabulosas fora dos seus discos, os Massive nem por isso. Escolhem as melhores para os seus discos e um bem haja por isso! Evitam-me a procura incessante por mais coisas deles.

Ps: Raios... nunca vou pôr o black milk nesta rubrica... raios...

Hoje começou o mundial

É verdade que já tinha visto dois jogos antes deste de Portugal. Mas ao contrário de muito boa gente que anda por aí, eu não avalio o meu patriotismo pela selecção nacional. Nem o de ninguém. O pessoal que abana muito a bandeira e que vê a selecção perder um jogo e retira a bandeira de forma envergonhada não tem nada de patriótico. A bandeira devia ser até um objecto de culto, para ser colocado e retirado na rua, ou posto em exibição num local nobre da casa.

Isto para explicar, que não ligo muito à selecção, mas aí de quem me diga que não sou patriota. Para ligar à selecção os jogos precisam de começar, senão não ligo puto àquilo. Hoje começaram. Eu, como o Manel, acredito no Ronaldo, mas também num jogador que vi evoluir de muito perto, o Fábio Coentrão, que é fenomenal pela raça, pela qualidade, e por tudo o que deixa no campo. Vou gostar de os ver aos dois no mundial.

A minha primeira recordação de um mundial é no Itália 90. Com o Manel e o Caracol em casa de um amigo nosso que vivia na Colina do Sol e não era o André Corte Real. Estava a jogar a Alemanha, e o Manel e o Miguel, como sempre, lá me explicaram o que se passava com aquele momento de bola, eles sempre foram os meus professores de futebol. E é por isso que eu também gosto de bola, e do mundial, porque foi e será sempre um momento partilhado com os meus melhores amigos para discutir e comentar um desporto que quando descoberto é lindo.

Bom mundial a todos. Aos que não gostam, não se preocupem não têm que gostar, muito menos da selecção - que termine rápido, juntamente com aquele maldito instrumento de barulho infernal chamado vuvuzela. Ainda estou para ver as repercussões daquela treta. EU NÃO PONHO GASOLINA NA GALP!!!!

Ronaldo é Schillaci

O Campeonato do Mundo de Futebol, para além de ser das equipas que levam a sua camisola a sério, como parte integrante de uma competição mítica, é também dos jogadores que - continuando na senda da magia do jersey - desde as primeiras camisolas de futebol a caírem até aos joelhos (esfolados) sonharam estar ali.

Salvatore Schillaci, tatuado com uma infância pobre em Palermo e mal-amado na Juve, esteve lá. Chamado à última hora para o Mundial de 1990, para substituir Andrea Carnevale, passou de reservista oficial, a suplente de luxo, a titular indiscutível, a herói nacional. Amparado pelo génio de Roberto Baggio, Totò, em sete jogos fez seis golos, quase todos eles banais - excepto o golão ao Uruguai - mas todos eles maravilhosos - porque foram num Mundial e não nos jogos do Amat Palermo, amplamente discutidos nas barbearias locais.
Mas foi ali, no religioso berço da Máfia, que Schillaci, numa noite quente de Verão, tipicamente de férias grandes, sempre maiores que a vida e maiores que tudo, depois de à tarde a sua mãe lhe ter puxado as orelhas porque o filho devia ter ido buscar leite e ficou a jogar com os seus amigos - acho eu - olhou para a estrelas e sonhou repetir aqueles golos vespertinos num Campeonato do Mundo. Vestir a azzuri. Ser o herói da sua rua, ser o herói de Palermo, ser o herói da Sicília, ser o herói de Itália, ser o herói do Mundo. Estádios cheios, bandeiras, cânticos, golos, vitória, beijos, gritos, abraços, flashes, taças, glória, multidões em transe colectivo, um país em plena revolta - e fechou o sonho ensaiando um festejo antes de voltar para casa. E, em parte, conseguiu, apesar da Itália ter ficado em terceiro lugar no Mundial '90. Schillaci foi um herói.

Portugal inicia hoje a sua participação no Campeonato do Mundo na África do Sul. Com uma equipa maioritariamente cinzenta, desenxabida, liderada por um tipo teoricamente perfeito mas praticamente péssimo, que se limita a debitar lugares-comuns como se estivesse numa sessão de team-building para atrasados mentais. Está num grupo
muito complicado com uma selecção que se lhe equivale, outra muito mais forte e outra que é uma incógnita porque está em permanente reunião do comité central. Mas - e este mas tem o tamanho do mundo - Portugal tem Ronaldo. E Ronaldo é o puto que sonhou ser grande num Mundial, que também olhou para a estrelas da mesma constelação de desejo que Totò e tantos outros, melhores ou piores jogadores. Ronaldo é Schillaci, com a vantagem de ser um predestinado. E isso pode fazer toda a diferença.

segunda-feira, junho 14, 2010

Curtas#3

O António José Seguro parece-me sofrer do complexo Emílio Peixe: gosta-se dele mas dá sempre a sensação que nos juniores é que foi.

Curtas#2

Quem cresceu a ver jogar Figo, Rui Costa e João Pinto, entre outros, olha para esta selecção e parece material de contrafacção.

Curtas#1

Não assistir aos hinos no Mundial é o mesmo que dispensar os preliminares.

Coisas de que desconfiávamos



Deus é argentino. E promete tocar no campo sempre que a alviceleste jogar na África do Sul. É que afinal de contas, aquelas são também as cores que vestem o céu.

sexta-feira, junho 11, 2010

Calendário mundial tv

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quinta-feira, junho 10, 2010

E esta é a última



Será mesmo a melhor no youtube.

Hoje quase aos trinta

Ok, não é bem a mesma coisa, mas eu não sou propriamente o tipo mais ortograficamente consciente que existe à face da terra. Trabalho muito para não dar erros, e acabo sempre por dar. É uma desgraça...

Há uns anos, e foi há pouco tempo, não há muito. Descobri que pescoço se escrevia com "p". Sim, com "p". Sempre disse, Olha lá! Não me dês um caldo no bescoço que eu passo-me contigo! Odeio essa treta! Com outra prosaica como é evidente. E sim com "b"! Foi num exame da faculdade, senão me engano, No bescoço, os indígenas mostram o valor das suas posses... A professora veio falar comigo e tudo. EU ria-me muito. Ela lívida. Nunca disse a ninguém na faculdade, ou em qualquer outro sítio a partir do sétimo ano que era disléxico. É uma luta minha.

Hoje foi transeunde! Estava a falar com a minha amiga j, num chat, e escrevia e apagava a palavra, sem a reconhecer. A luta de um disléxico é assim, temos de trabalhar para reconhecer as palavras, uma por uma.

Transeunde, transeonde, transeundo, depois um tipo começa mesmo a atrofiar, a repetir a palavra alto. TranSANDAS! Transformista. Nunca sai a certa. Lá fui eu procurar - transeunte! TE!!! a minha vida toda a tresandar o pessoal a passar na rua!!! Quando tinha de os tresentar! Rais parta! Desta não me vou esquecer tão cedo.

Há esta...



Mas não é o Kora Jazz Trio...

Para quem quiser, Kora Jazz Trio, Part III. Vale muito a pena e não é o mais caro deles todos.

Sei lá! Por vezes é porreiro pregar aos peixes. Não é para isso que os blogues servem? Estes assim pequeninos?

Uma música quase todos os dias 20



VInha do cinema a ouvir Kora Jazz Trio, o Manel telefonou-me da Ericeira a dizer-me que ouvia de lá a música...

Estou nos meus vinte minutos de gelo na perna, que hoje voltei a calçar os meus sapatos, e precisava de um reforço de gelo. E pensei vou pôr aqui Kora Jazz Trio, e ainda tenho tempo para fazer um post sobre o filme. Fica para outro dia, porque gastei o meu tempo todo a tentar procurar qualquer música deles na internet que me agradasse, e nem por isso. ELes são muito bons, mas deixam o melhor para os discos. Nada na internet a não ser esta versão da música dos Buena Vista Social Clube.

Problema:

Costumo aqui incentivar o pessoal a gastar um bocadinho de dinheiro para comprar os cds. Mas os Kora Jazz Trio têm o raio da mania de ter os cds deles a preço de ouro. Ando há um ano a tentar comprar um no Amazon, mas ele nunca baixa de 50 euros. Por um cd? Epá... não!

Tenho de acabar com este projecto de "uma música quase todos os dias" é um título cansativo. Vai até aos 25.

quarta-feira, junho 09, 2010

Uma música quase todos os dias 19

Há músicas que nos marcam. Lembro-me perfeitamente do dia em que ouvi " Blue in Green", pela primeira vez. Ouvi-a a fazer qualquer coisa, meio distraído, mas com o ouvido ligado. Depois de a ouvir dessa maneira mais despreocupada, sentei-me numa cadeira grande que tinha na casa dos meus pais, coloquei-a no meio do quarto e fiquei parado a ouvir o Miles Davis e o Bill Evans, pianista esse que na altura ainda não sabia bem quem era, nem a sua importância. O Jazz e a história do Jazz é um processo de aprendizagem. E se ainda estou no início, há uns anos era um miúdo fascinado pelo som encaixado mas ultra imaginativo e livre do Jazz. Hoje sou um miúdo fascinado pelo som encaixado mas ultra imaginativo e livre do Jazz, com mais alguns discos.



Nesse dia ouvi esta música umas 10 vezes de seguida, sentado naquela cadeira, que hoje em dia já não existe. Como o fiz com várias outras músicas, umas que me lembro, outras nem por isso. Esta lembro-me da cor que a tarde abatia na minha janela. Como os prédios em frente tinham uma pintura diferente. Como o seu mostrava o vento a passar, e as árvores não lhe ligavam muito. Tenho essa imagem na cabeça sempre que ouço esta música. Fecho os olhos e é como se estivesse lá. No meu quarto, confortável.

No Jazz de Miles Davis, as introduções de piano definem muito o caminho que ele depois leva a música, para depois a entregar ao pianista ainda mais refinada, que lhe devolve entusiasmado, ao que responde com mais intensidade ainda. Miles Davis rodeou-se sempre de grandes músicos, mas os pianistas foram alguns dos grandes na história do Jazz, Bill Evans, Chick Corea e Herbie Hancock, só para nomear os meus favoritos.

Hà uma versão do My Funny Valentine ao vivo, em que o Herbie Hancock faz a mais genial introdução, e que transforma a música numa pérola perfeita, sem absolutamente nada fora do sítio.

E que nunca se diga que o azul não fica bem com o verde.

As coisas parecem melhores



Ok, não é o melhor vídeo. Mas hoje dançava com uma miúda assim se a visse na rua. Ela agarrava-me, e não tinha problema. Nunca uma notícia de ficar dois meses parado sem fazer desporto me soube tão bem!

Obrigado pelo apoio, pessoal, os comentadores da emails, os comentadores de mensagens, e principalmente à Lígia Paz, a comentadora de serviço aqui no blogue. Um muito obrigado Lígia. O teu comentário foi o último golpe de sorte.

terça-feira, junho 08, 2010

Duas ou três folhas de diário

Acho que sim

Acho que estou mais nervoso hoje



Sempre fui um péssimo estudante. Muito por culpa de odiar estudar. No 11º ano decidi por bem ficar no 11º ano, apesar de ter passado a todas as disciplinas, como medida de me encorajar a estudar mais. O conselho directivo era muito moderno na Cidade Universitária, na altura, (hoje a minha antiga escola é um parque de estacionamento, odeio passar por lá, com todas as boas recordações que tenho daquela escola), e deixou-me ficar no 11º.

Não foi mau, acalmei muito, arranjei uma namorada com que iria ficar a namorar 11 anos, 9 deles muito bons mesmo. E consegui aumentar as minhas notas em disciplinas que me estruturaram como pessoa, filosofia e história.

Quando cheguei ao 12º, ia convencido que tudo iria correr bem, e correu. Tendo em conta que nunca deixei de ser um péssimo aluno, porque sempre odiei estudar, não sei se já o tinha dito. Tudo correu bem excepto francês, a que chumbei. Na altura, não sei se é assim hoje, tinha de se ficar no 12º se se chumbasse a uma disciplina. Eu fiquei, foi um ano bom para descansar de... não fazer grande coisa. Mas passou-se bem, conheci gente nova, deu para reencontrar novos amigos, como o Castor aqui do blogue.

Mas faltava fazer francês. Que andava manco desde a minha magnífica professora Renata, no 7º ano, que de certeza era mesmo boa professora, aliado a ser lindíssima, o que fazia com que as suas capacidades de ensinar fossem um pouco ofuscadas, visto que eu passava as aulas a ter sonhos acordados com ela. Desde aí, até ao 12º passei sempre de favor. (Diga-se de passagem que os meus outros colegas não tiveram dificuldades em Francês, as professoras bonitas são recomendáveis, sim! Novamente eu é que era, e certamente sou ainda, um péssimo aluno.)

No 12º arranjei uma professora do CDS, por sinal bem bonita também, não tão bonita como a Renata Boa Ventura, mas que me odiava, na altura já era mais homenzinho e não sonhava acordado com ninguém, e fazia-lhe entender que não gostava daquelas tiradas de direita no meio das aulas. Que fique claro, no entanto, que ela mais do que razão tinha em chumbar-me.

No segundo 12º ainda tentei ir às aulas, mas o meu hábito de odiar estudar fazia com que elas fossem pouco eficazes. Decidimos arranjar uma explicadora que me ensinou mais de francês em quatro meses do que eu aprendi em sete anos! Anulei a disciplina, portanto, os três anos, porque era disciplina base, e lá fui eu fazer o exame. Nesse dia estava nervoso...

Mas o dia em que eu fiquei mais nervoso na minha vida foi no dia em que eu fui ver o resultado do exame. A minha vida presa por dois números, a minha vida lixada por um apenas. Entrei no café, que tantas horas passei a jogar às cartas, dias inteiros se preciso fosse. Vi uma colega minha que tinha feito o exame de francês comigo, não lhe falei, coloquei-me ao lado dela, vi o meu nome - Miguel - 11! Agarrei nela, comecei a atirá-la ao ar, a dançar com ela, ela berrava e não estava muito voluntariosa. Por momentos pensei que ela não tinha passado, e que estava eu ali a fazer uma festa, quando ela passava por momentos terríveis. Mas nada disso, não era ela. Aliás, não a conhecia de lado nenhum. Estava a acompanhada pelo pai que olhava para mim num misto de desconfiança e de espanto por ver um rapaz ter tido força para dançar em voo com a gorda da filha dele.

Voltei à pauta, depois de algumas desculpas e rápidas explicações, e o nome Miguel vinha seguido de Armando Esteves. Aquela festa toda para nada. Procurei outro Francês, encontrei o nome, Miguel - 10 - desta vez a festa foi contida, comecei a dançar sozinho, e a dar murrinhos no ar, como o Rocky no cimo da escada. Voltei à pauta - Miguel Eduardo Hermínio Sousa. Não era eu. Raios! Já disse que estava nervoso?

Voltei a procurar outro Francês, não sabia que havia tantos. Francês 410, Francês 224, Francês 178, Francês para isto, Francês para aquilo. Eu odeio Francês. Lá encontrei o Francês seguinte e o Miguel nesse francês tinha chumbado - 9 - uma nota bem mais coincidente com aquilo que eu era como aluno de Francês. Sentei-me numa cadeira. Desanimado. A minha vida continuava parada. Levantei-me com a esperança de haver um 0,5 que eu não tivesse reparado, que me salvasse a vida. Miguel Francisco Armando Carvalho. MERDA!

Procurar o Francês certo!!! Procurar o nome certo!!! Francês X, nome Miguel Bordalo Dias - 14 - não pode ser, que o Miguel Bordalo Dias não pode ter 14 à língua do Napoleão. Francês X - Nome - Miguel Bordalo - 14. As empregadas do bar conheciam-me bem, eu estava há cinco anos naquela escola, aí de que não me conhecessem, até porque passava grande parte do tempo ali. Estavam todas perfiladas, genuinamente preocupadas comigo, sem estranharem aquele espectáculo, de um lado para o outro a procurar notas. Elas já me conheciam há cinco anos, sabiam do que era capaz. Cheguei até elas e pedi-lhes uma régua, para não falhar a leitura do nome e da nota que estavam afastados e eu não conseguia lê-los com toda a certeza. Elas arranjaram-me logo uma régua, não sei como. Fui ao expositor novamente, Francês X, Miguel Bordalo Dias, 14. Confirmado. Nem festejei. Sentei-me. Com um sorriso na cara. Meio incrédulo com a nota também. As empregadas do bar vieram ter comigo, visto que eu as tinha posto ao barulho, e sentaram-se ao meu lado, num misto de conforto e regozijo. Disse-lhes que passei, uma delas bateu uma vez as palmas de uma forma muito energética, as outras riram-se e tocaram-me no ombro levemente. Uma ainda expressou a esperança que lá voltasse um dia para as voltar a ver. Promessas não compridas está o mundo cheio, e a minha vontade naquele momento era ficar naquele bar para sempre, a descomprimir. Claro que iria lá voltar. Nunca mais as vi. Acho que vi uma, a mais nova uma vez no bairro alto, que me cumprimentou muito contente, e falei-lhe simpático, sem a deixar entender que não sabia quem ela era. Uns bares à frente, lembrei-me, e contei a história que acabei de escrever a quem estava comigo, ao contar a história ao vivo pego sempre numa gorda que esteja a passar por ali por perto, e danço com ela para reviver o momento.



Esse foi o momento mais nervoso da minha vida. E enquanto escrevo este texto enorme, que ninguém vai ler, excepto talvez a minha mãe, estou a passar por outro desses dias, o dia em que a minha vida vai dar ou não uma volta, que vai ou não adiar-se. Estou nervoso e quando estou nervoso só sei fazer uma coisa, escrever... e agora que escrevi, vou tentar escrever outras coisas.

Continuo sem dormir



Continuo a ouvir Tricky.



É também neste disco que há uma das versões mais interessante, de uma das músicas mais sobrepostas no mundo - Black Coffee. Mais uma vez a voz melodiosa sobre uma batida seca, quase desacertada, um piano terrível na secção rítmica. Quando a Martina canta - "To stay at home ... and drown her past regrets", por momentos nem me apetece ir para a cama... Sim apetece-me, mas não consigo arrastar-me até lá.

Uma música quase todos os dias 18

São quase quatro da manhã. Não consigo dormir. Amanhã pode ser um dia importante. Ou pode ser um dia de mais hesitações. Ou pode ser mais um dia adiado.

Hoje tive de ouvir Tricky. Mais novo, quando ainda tinha os músculos a funcionar, era adepto incondicional de Tricky. As letras, as hesitações, os momentos adiados, por vezes nunca finalizados.

Deixei de o ouvir quando a Martina Topley Bird deixou de cantar com ele, e ele começou a cantar com qualquer monstro que lhe aparecia à frente.

A Martina finalizava-lhe as coisas que ele queria adiar, fluía as suas hesitações, completava-o tão bem...



Aqui, os dois a cantar com Terry Hall, num disco que eu adorei comprar na altura, porque foi quase por acidente. O Tricky estava em conflito com a editora dele, e fez quase um disco pirada, com a Bjork, a Neneh Cherry, a Alison Moyet, o Terry Hall, entre outros, quando ele ainda sabia escolher com quem cantar, portanto. O disco chama-se Nearly God, e não está assinado por ele. Tem algumas músicas que valem muito a pena ouvir.

A letra:

Poems

I confide to anything
So I have to hide from everything.
Everybody wants a piece of me.
You see origin and cease to be.
Sit back and let it happen,
Let us take your time away.
I don't understand you.
I don't want your time of day.
If you're gonna walk, might as well walk your way,
Always up the hallways,
Forget the punk, I pack the funk.
I'm gonna take a piece of you.
Making money for good health, but first I learn to see myself
You've promised me poems

I rue the day that I ever met you,
And deeply regret you getting close to me.
I cannot wait to deeply neglect you,
Deeply forget you, Jesus believe me,
You promised me poems.
You might have been my reason for livin'
I gave up on givin', gave up everything.
We were a right pair of believers
A couple of dreamers, so how come
You hate me?
You promised me poems

Dreamed of ringing voices,
And contemplated choices.
Taste like a fresh kiss,
To heighten my awareness.
With all fairness, greatness, with gratitude.
And simply rhymes with attitude
Now do promotion and TV, and ya still can't see. We
Down the hill cascade
And keep away the masquerade,
Dreamed of ringing voices,
And you promised me poems

A secção cantada pelo Terry Hall, no meio, é incrível, e quem nunca passou por isso? Prometeram poemas, e não passaram de palavras de circunstância...

Muito bom

Para os poucos que passam por aqui, não percam nunca um link que temos aqui ao lado - fotografia sempre - eu passo-me com as fotografias, e já não passo sem o humor de algumas delas! É mesmo bom! "Á pá sóce!"

segunda-feira, junho 07, 2010

Oxigénio de fim de tarde ou noite ou lá o que é (porque felizmente agora é quase tudo a mesma coisa)



The Avalanches, Since I Left You

A sofrer pelo cinema

Pela primeira vez, garantidamente há dois anos, que tenho três filmes no cinema que quero mesmo muito ver, e não posso. Talvez quarta risque um do mapa. Entretanto hoje, num acto de auto-flagelação, lá fui ver o que é que estava a dar no King, onde costumo ir nas segundas-feiras, e lixei-me, porque já saiu o filme que eu quero ver, passaram de dois para três, e eu todo empenado em casa...

Já que me tinha desgraçado continuei a ver o que estava por aí no cinema, e fui encontrar um novo cinema, remodelado, renovado, uma nova sala, que serve teatro e cinema, o Turin em Benfica. Têm em sala de teatro uma peça de Alexandre Gerner, baseada de alguma maneira num dos grande filmes da década de 90 - Ghost Dog. A boa notícia para quem não está perro como eu é que o Ghost Dog está lá em exibição às 21h30m. Quem gosta de bom cinema, e quem gosta das influências japonesa tem aqui um filme a não perder. É enorme. E passaram de três para quatro... agora mesmo...

A velha história

Há quem acredite que quando a criminalidade sobe, se deve pôr mais polícias na rua. Como se isso fosse resolver seja o que for. Ouvimos várias vezes o bastião da direita em Portugal, a prometer que quando for ministro, que o senhor Portas quer ser ministro. Que vai encher o país de polícias.

Novamente numa distinção clara entre direita e esquerda. A esquerda tenta procurar o porquê do aumento de criminalidade, para o estancar. É a velha questão de quem quer solucionar o problema pelos meios, ou pelas bases. Sendo a finalidade a diminuição do crime.

Por falar em criminosos - Jardim Gonçalves tenta ilibar os bancos da crise e do que se passou há uns meses, dizendo que a culpa do que se passou foi dos - drum rolls - reguladores! Pois aí está! Claro! Os coitadinhos dos bancos só estavam a fazer o seu papel de agiotas, os reguladores é que andavam a dormir. E o Jardim Gonçalves sempre avisou sobre a importância dos reguladores! Como todos os directores de bancos, sempre! Querem sempre mais e melhores reguladores, não é?

O Jardim Gonçalves é outro dos porta-vozes da ganância em Portugal. E se algum dia o BCP for à falência, ele fica sem parte da sua reforma, e isso é inaceitável. Mas só parte, porque a outra somos nós que a pagamos, uma bem choruda.

Façam o favor de enfiar a Vuvuzela no...

Não me lembro de uma invenção mais estúpida do que a Vuvuzela, som que agora tenho de ouvir todos os dias, e som que me vai obrigar a ver os jogos do mundial sem som.

E é uma invenção estúpida porque a qualquer hora vai ser confundida com um instrumento, quando não passa de uma daquelas buzinas de barulho, que não é uma má invenção porque tem o sentido prático de avisar os operários da hora de almoço, ou mais importante, é um sinal para os barcos saberem onde estão quando está nevoeiro e os aparelhos estão estragados, procurando assim a reflexão do som, desagradável, mas alto. A buzina é depois mal utilizada quando vai para um estádio, mas otários há-os em toda a parte do mundo. Uma invenção como a Vuvuzela é uma invenção para fazer barulho, sem qualquer sentido estético.

E estava eu com a esperança de que como o mundial seria na África do Sul, eu ia estar a ver e a ouvir jogos com um fundo de tambores africanos a ecoar pelo relvado. A cultura da estupidez venceu mais uma vez. Como diz o Pedro Soares Lourenço na Arcadia - Façam o favor de enfiar a Vuvuzela na real peida. Obrigado.

Uma música quase todos os dias 17



Hoje queria colocar aqui o "Spartacus Love Theme" do Bill Evans. Não está no youtube, e como me estou a sentir nostálgico, vou antes colocar "Time Remembered", uma composição de Bill Evans, aqui ao vivo, nunca a tinha ouvido. É muito bom.

É o deboche

"Ele foi deputado trinta e tal anos." Diz o monárquico Fernando Nobre, sobre Manuel Alegre. E que portanto tem responsabilidades no estado terrível em que Portugal se encontra. Já Mario Soares não foi deputado trinta e tal anos, portanto é alvo de um rasgados elogios pré-póstumos, de muito mau gosto, diga-se de passagem...

Se ele não pediu o voto ao Mário Soares? Tenho quase a certeza que não. O Soares disse-lhe que votava nele, ainda o monárquico não fazia ideia que se ia candidatar ao lugar de presidente da república. Aliás! Seria um esforço redobrado, um tipo racista candidatar-se à presidência do SOS Racismo...

Esta última comparação foi um pouco difícil de fazer, ia começar pela religião, dizendo - é difícil um tipo ateu candidatar-se a líder de uma facção religiosa - mas penso que da Maná, à Católica é um dos pré-requisitos...

E ainda que eu ache que a figura do Presidente da República é um pouco sombria demais, (apesar de não gostar de sistemas presidencialistas), convém que o escolhido acredite num sistema republicano... Acho eu. Que convém...

sábado, junho 05, 2010

Fotografia

Todas as semanas vou à noite espreitar o Miradouro de Sofia, uma das minhas janelas preferidas sobre Lisboa.
É um daqueles lugares em que durante grande parte do ano a agitação da cidade que dali se avista se fecha num silêncio prolongado, como se fosse uma fotografia visceral. Percebe-se que está lá tudo, presente em várias linhas imaginárias unidas por pontos de luz, através de ruas, vielas, escadarias e becos: as pessoas, os encontros, as vozes, os olhares, enfim, a cadência quente de uma cidade que se descobre enquanto o céu se esconde no escuro. Mas não se ouve nada, nunca.
Na semana passada, após algumas semanas de ausência, regressei ao ritual de sempre mas enquanto estendia a vista pela cidade notei que havia qualquer coisa de diferente naquela fotografia. De repente, ouvi um coro forte a romper o silêncio.  Não percebi o que cantavam, nem sequer se gritavam. Pararam e voltaram, agora numa toada mais familiar. Hã? “Mouraria Allez”. Era a marcha da Mouraria a ensaiar, num largo qualquer ali para os lados de quem desce da Calçada do Monte. E a diferença era tão evidente: Junho, já estamos Junho.

Este mês, a cidade perfuma-se com o crepitar do carvão nos fogareiros, ilhotas de festa polvilham as colinas e revela-se o que está lá sempre mas que nem sempre se mostra – e não é só uma questão de perspectiva.  E uma das minhas janelas preferidas sobre Lisboa escuta agora uma melodia que duvido alguma vez encontrar noutro lugar do mundo. Não é da Mouraria e não é a das marchas. É a de uma cidade que, neste mês como em nenhum outro, solta o seu âmago num latejar perfeito. Talvez seja inexplicável, talvez seja poesia, talvez seja fado. Mas todos sabemos uma coisa: que é Lisboa.

A balada de Hatoyama

O Japão, que está na minha lista de países a visitar (juntamente com o Irão e a Índia, esta uma viagem que até se resolve a meias), é para mim um lugar fascinante, tão peculiar e intangível que às vezes até tenho medo de sofrer de orientalismo primário nesta relação, coisa que espero resolver quando ganhar coragem para ver a Balada de Narayama e acordar para a vida. Mas não é sobre esse deslumbramento íntimo que me interessa falar agora.

"How can we put an end to unrestrained market fundamentalism and financial capitalism, that are void of morals or moderation, in order to protect the finances and livelihoods of our citizens? That is the issue we are now facing.
In these times, we must return to the idea of fraternity — as in the French slogan “liberté, égalité, fraternité” — as a force for moderating the danger inherent within freedom.
Fraternity as I mean it can be described as a principle that aims to adjust to the excesses of the current globalized brand of capitalism and accommodate the local economic practices that have been fostered through our traditions.



Desde o final do século XIX, o inicio da Era Meiji - todo um conteúdo para mil posts– o país testemunhou um desenvolvimento excepcional, assente no modelo capitalista clássico e alavancado na força das zaibatsu  (os grandes grupos económicos, Mitsui, Mitsubishi, Sumitomo, etc), estes sempre com uma grande influência no poder imperial.
Os partidos tinham um poder inócuo  - os de tendência socialista, por exemplo, sempre contaram muito pouco – e o que tinham era controlado por estes grandes grupos. A história parece familiar e o resto, vá-se lá saber porquê, também. Entre o final do séc.XIX e o começo do séc.XX, o capitalismo japonês evolui normalmente - para o exterior - procurando mercados e fundos e depois exportando capital e abrindo mercados que ofereceram a possibilidade de lucro rápido. No caminho ascendente para uma economia pujante surge a vitória em duas guerras fundamentais (contra a China, em 1894-1895 e contra a Rússia, em 1904-1905) e sempre o papel diligente das zaibatsu. O país moderniza-se, unindo-se em torno do ideal do Dai Nippon (o Grande Japão), com uma fortíssima raiz social  (no Exército, na classe média, no campesinato) e entra na disputa com os países ocidentais pelo jugo colonial oriental, quer pela necessidade evidente da sua política capitalista quer pela via da afirmação de grande pais asiático e da chamada solidariedade pan-asiática (esta a chamada bela desculpa).

"If we look back on the changes in Japanese society since the end of the Cold War, I believe it is no exaggeration to say that the global economy has damaged traditional economic activities and destroyed local communities."

Depois da crise de 1929 – a crise, sempre a crise - quando a demagogia anti-capitalista da extrema-direita militarista e anti-parlamentar resulta na sua crescente influência no Estado-Maior do Exército e nas sociedades secretas Kokuryakai, o expansionismo japonês assume uma forma mais bélica e a guerra acabou por (voltar a) estalar com a China, em 1937, um momento que na Ásia Oriental se define como o começo efectivo da 2ª Guerra Mundial.

"In terms of market theory, people are simply personnel expenses. But in the real world people support the fabric of the local community and are the physical embodiment of its lifestyle, traditions and culture. An individual gains respect as a person by acquiring a job and a role within the local community and being able to maintain his family’s livelihood. Under the principle of fraternity, we would not implement policies that leave areas relating to human lives and safety — such as agriculture, the environment and medicine — to the mercy of globalism. Our responsibility as politicians is to refocus our attention on those non-economic values that have been thrown aside by the march of globalism. We must work on policies that regenerate the ties that bring people together, that take greater account of nature and the environment, that rebuild welfare and medical systems, that provide better education and child-rearing support, and that address wealth disparities."

É este mesmo país, que a vários tempos e de diversos modos, na sua história contemporânea foi ultra-nacionalista, ultra-militarista e construído em torno de uma matriz fundamentalmente ultra-capitalista, que depois de 50 anos de poder conservador do Partido Liberal Democrata, elegeu há oito meses Yukio Hatoyama, líder do Partido Democrático do Japão, para o cargo de primeiro-ministro. Yukio Hatoyama, que representou a chegada da esquerda – e da ilusão num mundo um pouco melhor - ao poder no Japão, é um personagem muito interessante e são dele as passagens ao longo deste post, excertos de um artigo que escreveu para o New York Times, em Agosto de 2009, um mês antes de ser eleito. O nome? "A New Path For Japan".

"Let me conclude by quoting the words of Count Coudenhove-Kalergi, founder of the first popular movement for a united Europe, written 85 years ago in “Pan-Europa” (my grandfather, Ichiro Hatoyama, translated his book, “The Totalitarian State Against Man,” into Japanese): “All great historical ideas started as a utopian dream and ended with reality. Whether a particular idea remains as a utopian dream or becomes a reality depends on the number of people who believe in the ideal and their ability to act upon it.”

Yukio Hatoyama demitiu-se no passado dia 3 de Junho, por não ter conseguido manter uma promessa eleitoral – encerrar a base norte-americana de Okinawa – e por ter visto os seus índices de popularidade cairem para níveis baixíssimos. Naoto Kan é o senhor que se segue. E o Japão continua a ser para mim um lugar tão peculiar e intangível.

E fascinante, definitivamente, fascinante.

quinta-feira, junho 03, 2010

Uma questão

Uma questão aos meus amigos que visitam este blogue. Porque raio é que as pessoas acham que eu não gosto de estar sozinho? É um dos meus passatempos preferidos estar sozinho! O que é que eu mim deixa transparecer o contrário?

Uma música quase todos os dias 16

O Pat Metheny foi a minha introdução ao Jazz. O meu pai andava a ouvi-lo muito e eu lá me fui chegando àquilo, numa altura em que ouvia grunge e Smashing Pumpkins. Aquela guitarra serve para marcar qualquer um.

Hà pouco tempo lançou um CD, Orchestrion, onde toca tudo sozinho, sobrepondo-se a si próprio, e o resultado é estrondoso.

O Pat Metheny é um dos grandes do Jazz, de sempre. Reza a lenda que passou um ano a responder a tudo o que lhe perguntava com a guitarra. Não falava a ninguém directamente. Pat queres beber alguma coisa?



Não me importava nada de ter um amigo assim. Fartava-me de lhe fazer perguntas. Não há músicas completas dele no youtube, felizmente. Quem quiser que vá comprar o CD, ou como eu encomende da Amazon que sai uma pechincha. Vale muito a pena.

Aqui um vídeo do Pat Metheny a explicar o seu último projecto.

Tudo acaba bem quando acaba bem, pelo menos até hoje ao fim da tarde

A bolsa está em alta. Estou muito feliz, não há palavras para descrever o que sinto, é como se tivesse descoberto o Brasil mas o Brasil fosse na Trafaria e o Belmiro de Azevedo fosse o Cristo Redentor mas estivesse mascarado de (ou fosse mesmo) Bruna Real (que, por falar nisso, cumpriu o seu sonho: já tem a "agenda lotada" - hã? - e chega de limousine a festas de estudantes onde, na condição de "famosa", centra em si todos os olhares e comentários tipo "és mesmo boa"; parabéns por isso à Bruna e ao seu namorado, o inevitável fuzileiro que conheceu no Hi5 e que, claro está, a "apoia", tal como 100 mil portugueses no Facebook e eu também).

Do outro lado do mundo - não sei se está relacionado, é óbvio que não percebo nada de mercados e até acho que não tem nada a ver mas não quero cortar esta linha de "raciocínio" - o Sr. Fink, do BlackRock (olha, reparei agora que se inspirararam no site do Diário Económico) uma firma de investimento ou assim, diz que as "acções americanas estão prontas para o Rock and Roll". Não sei bem o que quer dizer o Sr.Fink mas parece-me excelente, não parece?
Tudo isto é, como dizem as pessoas inteligentes, de Viana do Castelo a Vila Real de Santo António, "simplesmente espectacular".

João Aguiar

Eu tenho hábitos de leitura.

Gosto de ler livros, ainda que há dois anos que não encontre um livro que me deixe totalmente satisfeito... Ando a ler os livros errados, muito porque há dois anos decidi começar a ler os grandes clássicos norte-americanos, ou "todos aqueles tipos que estiveram casados com a Marilyn Monroe", como também podem ser chamados, escritores como o Arthur Miller ou o Norman Mailler, mas eles não me fazem grande coisa.

Antes disso tinham sido os grandes clássicos russos, depois de uma passagem algo comprida por Hemingway e outros grandes clássicos sul-americanos, e sim, incluo Hemingway junto do Gabriel Garcia Marques e do Jorge Amado, entre outros.

Isto tudo porque comecei por ler só escritores portugueses. Durante década e meia não terei lido nada a não ser escritores portugueses. Eu comecei a ler cedo. Júlio Dinis, primeiro, Eça de Queirós depois, e de uma maneira evolutiva o grande Aquilino Ribeiro, que é um bocadinho difícil de ler, tem por exemplo uma adaptação da Peregrinação que não sei se é mais fácil de ler do que a Peregrinação original. Tenho a sensação que é mais dicíl... Depois de me ocupar destes clássicos e de outros, seguiu-se Saramago, Urbano Tavares Rodrigues e entre outros João Aguiar.

O João Aguiar tinha a particularidade de ser sempre um escritor fácil de visitar. O que está longe de ser um crime. Um dos meus escritores preferidos é Platão e ele ganha por ser sempre claro como a água. E o João Aguiar sempre foi claro, escreveu simples, tentou que a história fosse interessante, e dos livros que eu li consegui-o sempre.

Como tenho hábitos de leitura, há muita gente que se vira para mim a pedir-me conselhos sobre o que devem ler ou não, para começar a ter - hábitos de leitura. A minha resposta é invariavelmente a mesma. Se queres entrar no mundo da leitura como deve ser, o segundo livro que deves ler é os "Capitães da Areia" do Jorge Amado, o terceiro "Cem anos de Solidão" do Gabriel Garcia Marques, o quarto "Ensaio sobre a Cegueira" do Saramago. Mas é muito importante que o primeiro seja "O Navegador Solitário" do João Aguiar. Que é um exercício acompanhado de evolução da escrita, e consequentemente da leitura. E com o Solitão já fiz muita gente ler o resto dos livros, pessoas que ainda hoje me ligam a recomendarem-me livros a mim.



Uma palavra então, de especial reconhecimento, ao escritor que eu uso para abrir o caminho à leitura às pessoas que conheço. Com um livro que é essencial para quem gosta de se divertir a ler. Se ainda não o leram, leiam. Se já o leram, é boa altura para o reler. A notícia hoje, de ter perdido a luta com um cancro, muito novo, e certamente com vondade de escrever muitos mais livros, deixa-me verdadeiramente triste.

quarta-feira, junho 02, 2010

As maravilhas do desporto - qualquer desporto

Sempre fui viciado em desporto. Tardes a acompanhar -qualquer coisa - na Eurosport, mas quando digo "qualquer coisa", é qualquer coisa mesmo! Adoro os desportos individuais, e a jornada que cada um tem de atravessar sozinho para chegar a certo sítio, apesar de hoje em dia já não haver grandes jogos individuais, há uma equipa por trás de cada sucesso. Desportistas como Gebrselassie, que correram toda a vida como aprenderam, com o vício de ter uns livros debaixo do braço, já não existem. Mas não sou saudosista, há outras coisas boas, e é bom que haja acompanhamento dos atletas, e que esse acompanhamento seja para que cada um consiga chegar ainda mais longe, e que qualquer dia haja um atleta a correr 100 metros abaixo dos 9 segundos. E não seria isso uma gigante maravilha assistir?

Os jogos de equipa são também um regalo. O futebol, que gosto especialmente, vive entre a equipa e o individual, mas o Cristiano Ronaldo não consegue ganhar um campeonato mundial, sem uma equipa magnífica atrás dele, começando pelo treinador, e não estou a ver isso a acontecer. Mas por mais que a equipa seja magnífica, neste momento, nenhuma equipa portuguesa ganharia o mundial sem o Cristiano Ronaldo a jogar a alto nível.

O sofrimento, a empatia, a alegria, a luta, o sentimento de pertença, de protecção, de defesa, de camaradagem é algo que se pode ver em algumas equipas, e por vezes é no momento da derrota que se repara mais nisso. Ou na vitória final. Quando a emoção toma conta de tudo, e um homem de 100 quilos e dois metros, se torna numa criança a chorar abraçado a um colega que também ele a chorar tenta confortar o seu camarada, procurando com isso confortar-se a ele próprio, isto na derrota ou na vitória, no choro de desespero ou no choro de entusiasmo.

O caso que aqui vos apresento é na NBA, uma competição que acompanho muito de perto em www.nba.com. É um desporto magnífico, com jogadas estudadas a cada minuto, com alguns jogadores a destacarem-se a nível individual, mas com a equipa a ter uma importância fundamental. Num jogo miserável de Ron Artest, que tinha praticamente falhado tudo o que tinha para falhar no jogo, que tinha deitado tudo a perder a minuto e meio do fim quando falha dois cestos fáceis, tinha-se tornado no pesadelo dos Lakers, por alguma razão continua em jogo, porque é um fabuloso defesa, e o Phil Jackson precisava de alguém que lhe garantisse pelo menos o empate. Os Suns emparam o jogo com 2 segundos no relógio, fizeram a festa como poucos. Tinham conseguido o prolongamento. Faltam portanto 2 segundos para o fim do encontro e como sempre a figura de Kobe Bryant ficou de resolver o jogo. Odom passa-lhe a bola, Kobe atira, e falha, Ron que passava por ali, pega na bola e ainda a tempo, atira para fechar a contagem, e ganhar o encontro, de monstro a heroí. Mas o que me chama a atenção no vídeo não é o momento engraçado de um tipo que se torna herói depois da desgraça, é que há um jogador dos Suns, que assim que a bola cai no cesto depois de Artest a agarrar grita: "Noooooooo!" O momento em que a derrota fica consumada, o momento aflitivo em que a equipa que lutou tanto por um objectivo perde no último momento, em desespero. O desporto é assim, tem vitórias e derrotas, mas vive-se sempre com intensidade.

Seguem aqui os dois vídeos, nos dois conseguem-se ouvir o jogador dos Suns a gritar, um da nba.tv, e outro do Inside NBA, o meu programa de desporto preferido, que vejo religiosamente todas as semanas, mais do que uma vez por semana durante os playoffs.






O desporto tem coisas assim. Que saudades...

Uma música quase todos os dias 15



Esta é a música mais perigosa dos Radiohead. Eles não deixam de ser aqueles tipos deprimidos, mas por trás desta música há uma esperança medonha de que se houver tempo, tudo o que nós apreciamos vai ter mais valor, vai tornar-se naquilo que sempre se desejou...

É uma das músicas que mais ouvi deles. Está disponível, com bem melhor qualidade do que no Youtube, no único disco ao vivo que conheço dos Radiohead "I Might be Wrong - Live Recordings".

A letra é perfeita para quem já passou pelo momento em que o parceiro deixa de gostar de nós, e nós ainda estamos agarrados à ideia de que o valor que lhes damos torna impossível que a relação acabe. Já ouvi algumas vezes esta música... A verdade é que há um momento em que sentimos que podemos fazer tudo para salvar uma relação, quando na realidade há coisas que são só feitas a dois. Salve-se esta música desse momento impossível, e terrivelmente solitário.

True Love Waits
I'll drown my beliefs
To have you be in peace
I'll dress like your niece
To wash your swollen feet

Just don't leave
Don't leave

I'm not living
I'm just killing time
Your tiny hands
Your crazy kitten smile

Just don't leave
Don't leave

And true love waits
In haunted attics
And true love lives
On lollipops and crisps

Just don't leave
Don't leave

Just don't leave
Don't leave

Contra a demagogia de café

André Freire, a dois tempos, no Ladrões de Bicicletas, desmonta muito bem a teoria da petição que circula por aí e que pretende reduzir o número de deputados na Assembleia da República de 230 para 180.

Acho óptimo que os cidadãos participem e que se mobilizem as pessoas para participar através das novas plataformas de comunicação, para mais sabendo que uma petição com mais de 4 mil assinaturas é obrigatoriamente discutida no Plenário da A.R, mas também acho que aprofundar um pouco o tema sobre o qual lançaram a petição não teria feito mal nenhum aos signatários da mesma.

Mas, hoje em dia, mais do que fazer bem, com todos os meios que têm à sua disposição, há muita gente apenas a querer parecer bem. E nada como uma petição abstracta contra os "políticos" para recolher os aplausos no café do ciberspaço. Vejamos agora se os deputados vão aproveitar a deixa e fazer uma vénia à demagogia.

terça-feira, junho 01, 2010

O regresso

Andaram calados durante muito tempo. A Guerra do Iraque, baseada numa aldrabice à escala planetária, pode ter vitimado entre 300 a 900 mil iraquianos. Mas, enfim, não havendo armas de destruição maciça havia com certeza uma bela série de razões para um país violar abruptamente a soberania de outro. Mesmo não havendo Al-Qaeda, havia Saddam. Porra: haviam árabes ou não haviam? Bom, havia, certamente, a eterna supremacia moral do Ocidente para repor a ordem na Iraque e onde quer que houvesse um gajo com um turbante.

E quem melhor para corporizar essa justiça vingadora do que George Wild Wild West Bush? Foi maravilhoso, tirando aquele pormenor poético que Cheney previu - “vamos ser recebidos com flores e canções de liberdade” - e que não aconteceu muito bem como planeado.
Por cá, inspirados pela vexatória Cimeira dos Açores, Vasco Rato, Nuno Rogeiro e mais uma série de personagens juntavam-se feito coro baptista, viva Bush!, viva Powell!, viva o Ocidente!, e ao coro juntava-se em solo permanente o patético José Manuel Fernandes, Morte ao Eixo do Mal!, Amazing Condoleeza Rice!, Saddam vai cair!, simmmm!, obrigado Senhor!, Missão Cumprida! Mas a coisa acabou por não correr muito bem, até porque morreram também muitos ocidentais - e a coisa, já se sabe, aí já se torna realmente séria.

Agora, passados sete anos, lendo esta série de posts muito acertados de Sérgio Lavos e do Daniel Oliveira no Arrastão, notem no fulgor com que a direita caceteira regressa para, numa altura em que todo o mundo condena a violência (todo o mundo não, perdão: o governo português só se "preocupa" um bocadinho assim assim, não vá um dia ser acusado de ter tido um fugaz conteúdo político) terrorista de Israel, nos atirar poeira para cima dos olhos. Em nome do preconceito islâmico e nada mais do que isso, eis o regresso da direita àquela sua presunção ignorante de quem, querendo apenas fixar território ideológico e cultivar uma herança conservadora, elabora a sua opinião só porque acha que é o contrário da outra.

A esquerda pode ter muitos problemas, a começar pelo facto de não conseguir ser unitária quando mais seria preciso mas a direita tem um que se sobrepõe a todos os outros muito mais vezes do que o desejado: para ser, às vezes, tem que ser profundamente ignorante.

Uma música quase todos os dias 14



A Reminder
If I get old
I will not give in
But if I do
Remind me of this

Remind me that
Once I was free
Once I was cool
Once I was me

And if I sat down
And crossed my arms
Hold me into
This song

Knock me out
Smash out my brains
If I take a chair
Start to talk shit

If I get old
Remind me of this
That night we kissed
And I really meant it

Whatever happens
If we're still speaking
Pick up the phone
Play me this song.

A arte é a capacidade de se arrancar um pedaço da humanidade e mostrá-lo de uma maneira mais clara do que a relaidade humana em si, de mostrá-la ou interpretá-la, de interpretá-la ou criticá-la. O Thom Yorke consegue sempre colocar-me em sítios onde eu já estive, sítios onde eu estou, e sítios onde nunca pensei encontrar-me e rever-me passado uns anos nelas. Os Radiohead são bons demais para ser verdade...

Uma estátua

Um dia destes, quando ganhar o euromilhões. Vou fazer uma estátua ao Nimed. O melhor medicamento do mundo.


O primeiro médico que me viu disse para eu deixar de tomar o nimed passado três dias, escrevia ao computador enquanto me dizia isto, parou de escrever e reiterou olhando-me de cima para baixo - Pare passados três dias! - como quem diz, se quer que isso fique bom é bom não se agarrar a essa droga. Eu que apanhei um susto enorme com esta lesão quis ser um menino bonito e no sábado de manhã parei. À tarde já estava cheio de dores, domingo passei mal, e segunda foi um pesadelo até chegar ao médico de família que me disse, mas vocês está parvo! Acha mesmo que isso ia passar em três dias? A olhar para a minha perna como se estivesse virada ao contrário. Voltei ao Nimed e hoje parece-me que vou estar novamente operacional, pelo menos para os serviços mínimos de ir buscar a minha comida sozinho.
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