segunda-feira, agosto 30, 2010

Casa



Não é raro sair de casa e passear quilómetros. Normalmente à noite, enquanto está mais fresco, seja inverno ou verão. O sol é o pior inimigo das caminhadas.

Andar ajuda-me a pensar. O chão de uma casa minha arrisca-se sempre a abater um pouco no percurso que faço para andar de um lado para o outro. De um lado para o outro.

Nos dias em que a minha cabeça está mais confusa ou vou beber uns copos com uns amigos, ou vou de Telheiras ao Terreiro do Paço e volto. Já fui ver uma peça de teatro ao CCB... Porque teatro e cinema estão cada vez mais ligados a um ritual que faço sozinho. E vou a pé, vou ao Saldanha, vou ao King, vou ao Corte Inglês. A pé. Que é a melhor maneira de viajar, logo seguida de comboio. Também sozinho. Um pouco a dormir, um pouco a escrever, um pouco a ler, e sempre a ouvir música... e se conseguir, andar de um lado para o outro no comboio.

Estou com sono... ainda queria ver mais umas bateria, mas não consigo... vou andar nos sonhos.

QUEM? COMO? A SÉRIO?

Hoje fiquei meio atordoado na minha volta ao expresso on-line. Li um artigo e tive de confirmar umas quantas vezes a autoria do mesmo. Ainda agora quando escrevo isto, tenho vontade de voltar ao Expresso e certificar-me que foi mesmo o Henrique Raposo a ter a iniciativa de escrever isto. Juro que fiquei incrédulo.

É que há coisas que uma pessoa pensa que nunca vai ler na vida de alguém, esta foi uma delas. Obrigando-me a deixar de o ignorar e dizer - epá, ok. Tens razão Raposo. É pena é os outros 364 dias...

Para o meu amigo Sérgio

Uma boa notícia.

quarta-feira, agosto 25, 2010

O que a arte faz por nós


Os meus últimos dias têm sido de algum trabalho. Estou a tentar escrever uma cena que não me sai tão bem por não ser totalmente minha. É sempre mais complicado.

Hoje intercalei essa escrita com outro trabalho que tinha aqui para fazer, e quando terminei esse trabalho, deitei-me no meu sofá, e li durante uma hora o meu livro. Um dos livros que, a meio, mais gostei de ler na minha vida. Não sei se ele fecha bem os seus livros ou não, vou descobrir, é o meu primeiro livro do Haruki Murakami.

Encontrei nele aquilo que a arte pode fazer por nós. Mais do que um conselho, mais do que uma avaliação, ou uma auto-avaliação, a arte pode mostrar-nos um pouco do mundo, pegar num pedaço desse mundo e revelá-lo...

É engraçado. O meu sentido de resignação, a minha capacidade de me desligar de uma realidade dolorosa de um momento para o outro sempre a tive como uma qualidade. Se não se pode resolver, não é um problema, não posso lutar contra isso. Hoje, depois de ler um pouco o livro, já não tenho a certeza se é uma qualidade. É assim que eu sou, também não é um defeito. A pergunta é, isso faz de mim o quê?

Tive um ataque de pânico na minha vida que me levou ao hospital, e me incomodou verdadeiramente, porque não sabia o que era, e porque não fazia ideia do que se passava. A seguir a isso já tive alguns mais, mas o máximo que me aconteceu foi incomodarem-me o sono.

Há quem me ache um tipo frio. Há uma certa frieza em racionalmente abandonar certos sentimentos. Sem dúvida. Mas sempre o vi mais como algo que precisava de fazer para manter a minha sanidade mental. Para ter tudo controlado.

O personagem deste romance lembra-me um pouco da maneira como eu encaro muitas das minhas coisas. Irritado facilmente por merdas de trabalho, calmo como o bafo de verão quando se vê perante problemas sentimentais.

O meu problema ao ler estes romances que se encaixam comigo em peças de puzzle perfeitamente ajustáveis, é que se eu tivesse um poço por perto, enfiava-me lá dentro. Só para saber se a forma como eu acho que vou encarar a minha morte é realmente como eu penso que vai ser.

Será terrível conseguir rir-me de dor? Porque por vezes é tudo o que eu quero. Conseguir rir-me de dor. Sentir dor a rir-me e mais nada. E porra... não consigo tomar conta de mim, quanto mais de outros, cheguei mesmo aqui.



Dançar com Jazz! I

terça-feira, agosto 24, 2010

Agora... Dançar a sério?



Em casa!

Pronto para mais

Como alguns que lêem este blogue há mais tempo já sabem, ando meio coxo, fiz uma ruptura do músculo da coxa, nas palavras da minha fisioterapeuta - uma ruptura gigante!!! - Isto foi lá para Maio e ainda não estou perto de jogar futebol novamente. O que não é uma tragédia para mim, seria se não pudesse surfar.

No outro dia foi para uma noite de dança com a minha amiga Lígia, que não tem um blogue activa, rais a partam. E destrui-me todo. É provável que as três surfadas de cinco horas também não tenham ajudado muito. Mas a dança deu-lhe um pequeno revés, que parecia ser bem pior, já que hoje ela liberou novamente o surf. Mas diz para eu ainda dançar agarrado ao balcão, com uma cerveja na mão e a abanar a cabeça.

Portanto, eu não sou tipo para gostar de Joy Division (nem um bocadinho), mas porra, aquilo dança-se que é mel quando me encontro numa discoteca. E já foram vários os momentos em que a dancei, top 5 "Love will tear us apart":

Festa Quase Famosos - Frágil: Obrigado Pedro pela música, já há saudades de uma daquelas festas dos Quase Famosos. E eu e o Manel numa foto muito perigosa que anda perdida pelo mundo cibernético.

Bedroom: O curioso desta noite é que não me lembro com quem é que estava. Só me lembro do espaço e de algumas músicas, e de acabar por ser "convidado a sair", devido à maneira "expansiva" como me estava a expressar. Também podia ter escolhido o Jamaica, mas eu lembro-me vagamente que me diverti e muito nessa noite do Bedroom.

Teatro Comuna: Já fui lá umas vezes, mas desta vez com a Lara e com uma amiga, foi a vez que mais gostei de lá estar. Comigo em forma há só uma mulher que aguenta a minha pedalada numa noite, é a Lara.

Clube Ferroviário: Só eu e a Lígia. Tudo à nossa volta meio quieto, e nós com isso!

Rocky: No bairro alto, ainda sem idade para pedir uma bebida alcoólica, completamente bêbado e a cantar - Love will tear us appart AGAIN! - numa altura em que me apaixonava diariamente por uma ou duas raparigas. Foi uma altura de muito amor!


desta vez a página 33

Para quem não acredita na minha teoria dos 33 anos. Uma das provas mais engraçadas, e que nem fui eu que a descobri. Jà as descobrem por mim. Neste caso a Lígia. A Lìgia é uma das minhas amigas mais antigas nesta história dos blogues. E anda sempre meia orfã de blogues, acaba e apaga blogues inteiros! Uma cena nunca vista. Também foi responsável por me dar cabo da perna numa noite muito bem dançada no Bicaense.

Aqui vai, a prova 33 - Noites Brancas - Dostoiévski, (para quem me conhece bem, sabe da empresa e da minha página do facebook, isto tem de ser mais que claro!) Página 33:

“- Oiça, quer mesmo saber quem eu sou?


- Quero, quero!


- No sentido lato da palavra?


- No sentido mais lato possível!


- Aqui tem, sou um tipo.


- Um tipo, um tipo! Mas que tipo? – gritou a rapariga, rindo-se às gargalhadas, como se não tivesse tido possibilidade de rir-se durante um ano inteiro. – Mas você é divertidíssimo! Olhe, aqui há um banco, sentemo-nos! Ninguém passa por aqui, ninguém nos vai ouvir: comece já a sua história! Sim, porque não me convence, sei que tem uma história, mas está a escondê-la. Em primeiro lugar, o que quer dizer “tipo”?


- Tipo? Bem, um tipo é um original, é um sujeito esquisito! – respondi, começando também a rir-me, acompanhando o riso infantil dela. – É uma espécie de carácter. Oiça, sabe o que é um sonhador?


- Um sonhador! Claro, como poderia não saber? Também sou sonhadora. Às vezes, sentada ao pé da avó, que coisas não me passam pela cabeça! Então começo a sonhar, entro em tais delírios… chego a casar-me com um príncipe chinês… Mas olhe que sonhar, às vezes, até é uma boa coisa! Ou então não é, só Deus sabe! Sobretudo se, já sem isso, houver tanto em que pensar – acrescentou a rapariga, desta vez com toda a seriedade.


- Óptimo! Se já lhe aconteceu casar-se com um membro da família imperial chinesa, então vai compreender-me perfeitamente. Oiça então….”

segunda-feira, agosto 23, 2010

Hoje lavei a casa

Comecei com isto...


Acabei com isto...


Agora tenho a casa lavada, o que é me torna um perigo para mim mesmo, sou um auto-perigo ambulante. Uma merda... enfim... não podia ficar mais no estado em que estava.

O cansaço e a depressão I

Substitutos, aliados ou companheiros?

quinta-feira, agosto 19, 2010

Protection

Um dia, numa viagem até ao Porto, tinha dormido mal, e não fui a guiar, desde os 18 que sou eu que guio o carro em viagens de família, de início porque o meu pai me queria dar confiança, depois porque se tornou num hábito. Dizia eu que estava num início de viagem, e comecei a sentir-me mesmo bem. Pensei na viagem, no destino, no sol que aquecia a cara e me tocava nos olhos com leveza, quando a luz entra para dentro de uma pessoa e a aquece. Estava a pensar nas pessoas que eu ia encontrar, e nas que ia reencontrar quando regressasse a lisboa. Ao contrário de mim, o meu pai tem sempre o rádio ligado, eu ponho sempre um cd, mas do rádio vinha o Protection, dos Massive Attack, aquele ritmo certo, aquela tentativa de dizer àquela mulher que ela ainda pode encontrar um porto seguro, aquela voz, aquele ambiente... Reparei que sabia a letra toda da música, nunca tinha reparado antes.

Foi uma das melhores viagens da minha vida, a meio fui eu a guiar, tudo correu mesmo muito bem.

A partir desse dia em qualquer viagem de mais de uma hora que faça, tento sempre, mas mesmo sempre ouvir o Protection logo de início.

Comentário feito no Blogue da Maria. A minha grande companhia de blogue nos dias que correm, obrigado pela companhia Maria.

quarta-feira, agosto 18, 2010

A atrofiar

Hoje o meu trabalho foi em casa, e ando a atrofiar a ouvir esta música, quase só, tento ouvir outras coisas e volto sempre ao caos. Há dias em que tudo, mas tudo demora cinco vezes mais tempo a fazer.



Acho que vou intervalar para lavar mi casita.

Claro que por vezes deixo o disco continuar com esta música:

As melhores noites de dança de sempre

Esta já me podiam apanhar a ouvir em casa, assim distraído.

Algures... já nem me lembro muito bem... aí sim! No Bicaense.

As melhores noites de dança de sempre

Jà esta não ouço mesmo, mas é uma banda cheia de estilo.

Algures, deixa lá ver... sim, sim - no Bicaense.

As melhores noites de dança de sempre

Epá, estava a ouvir aqui uma data de merdas que nem sabia que tinha e uma música em especial lembrou-me de algumas boas noites de dança que tive na vida. E eu não sou de dançar. Sou tipo para ficar quieto, a beber a minha bebida enquanto os outros dançam - pois... ou não...

Fica aqui - um dia destes no Bicaense!


O mais incrível é que apesar de me divertir, nunca estive num lugar à noite, desses para dançar, onde ouvisse alguma coisa que eu costume ouvir. Nada.

terça-feira, agosto 17, 2010

Olá, eu sou o Miguel...

...e tenho um cão completamente avariado do sistema.

Modo: sou tão querido.


Modo: durmo assim e então?


Modo: Estás a acordar-me porque raio de razão? Quero dormir mais! Não quero passear para nada, quero é dormir. Faço mais tarde e então?


Modo: Como-te o pé se não me deixas em paz, e é já! Sim, sou um perdigueiro, mas mil vezes ficar deitado a ir correr com este calor. Jà viste o calor que está? Já passou? Não acredito. Vai passear o outro! Olha que ficas sem dedo!

segunda-feira, agosto 16, 2010

33

Claro que o Thirty Three é o meu álbum preferido deles, assim de longe. Seis músicas, entre elas o Thirty Three (33), sempre, The Last Song, The Aerplane Flies High (Turns Left, Looks Right), Transformer, The Bells e por último o absolutamente brilhante My Blue Heaven. O que é que se pode pedir mais? B-side? É um crime chamar-lhe b-side...

Algumas destas coisas lembro-me de ter comprado na Virgen nos Restauradores, que tinha uma secção magnífica de b-sides. Nunca mais nenhuma loja teve aquilo.

Assim já não dá

Em 92 os Smashing lançaram um pequeno álbum, com três pequenas músicas chamado Peel Sessions. Que eu só consegui obter em 96. Demais... e já começa a ser difícil estar quieto a escrever.

Aqui estão elas, as três...




Bandas mesmo muito porreiras

Hoje vou passar o dia a ouvir Smashing Pumpkins. Como os Radiohead uma das coisas que gostava mais de fazer é procurar os b-sides. Tive tudo de Smashing ainda colecciono tudo de Radiohead. E Set the Ray to Jerry é simplesmente a minha música preferida de Smashing, pelo menos agora, e espero que a dos meus vizinhos também que a minha aparelhagem dá poucas tréguas.



Quer dizer... daqui a 12 minutos pode ser que a minha preferida seja o Lucky 13.



Nota: Não vi nenhum dos vídeos, se houver algum problema com algum deles, façam o favor de relatar.

Bandas porreiras

Já fiz o meu número de entrevistas a bandas. Conheci tipos porreiros, tipos impecáveis, e raramente, muito raramente, tipos difíceis. Mas estes Local Natives são uma das bandas mais amigáveis aos fãs que alguma vez existiu. Este vídeo é a prova. Apesar de ser sobre perda, esta música continua a despertar em mim um sorriso, porque gosto de me lembrar daqueles que perdi com um sorriso.

É preciso ler a explicação, para quem tem paciência vale bem a pena.

domingo, agosto 15, 2010

Vamos pôr estes malandros na ordem

Estão a ver a cadência noticiosa dos sites que estão sempre à espera da última notícia, do último furo, da última história? Esperam a bomba relógio, para a publicarem conjugada entre um título eufórico e palavras-chave, de cuja colocação e harmonia métrica dependerá o sucesso da notícia, para explodir em visitas, hits e pageviews.

O CDS-PP é igual mas em partido. Com a vantagem clara de que, nesta altura, misturar as palavras-chave "Rendimento Social de Inserção" com "Limpeza de Matas" é sucesso garantido. E querem título mais eufórico que "CDS quer beneficiários do rendimento mínimo a limpar matas" ?

Melhor que isto só se Paulo Portas (ou Pedro Mota Soares, porque não?, uma pessoa com ar de extremamente boa pessoa, uma pessoa com ar de pessoa de bem, uma pessoa com ar de pessoa que, de modo inatacável, por causa do seu ar de pessoa que, aponta o dedo aos malandros e gatunos deste país) aparecesse nos próximos dias na televisão, com ar pesaroso, visitando uma aldeia que tivesse sido cenário de um fogo e, perante os gritos da mulher que, em declarações à TVI, em frente ao pelourinho da povoação, acicataria os populares a fazerem justiça pelas próprias mãos - "era queimar os bandidos que fizeram isto, metê-los no fogo, os malandros! " - resolvesse subir um pouco mais o nível.

Como? Vestindo o ar de orgulhoso-emotivo que, com a mão no ombro da senhora diria: "Ouça, minha senhora...(pausa para cerrar dramaticamente os lábios)... estamos aqui para tratar disso (termina com olhar confiante, acenando, determinado, com a cabeça). Coragem!"

Vamos pôr estes malandros na ordem.

sábado, agosto 14, 2010

A selva

Estive quase a dar o título de "No drive thru com", mas não só ia desvirtuar os posts do Manel, como depois de ler a "Feira das Vaidades", decidi-me por a selva!



Interrompi o meu iato, muito saudável, diga-se, de abstenção ao youtube para ver a notícia quem só eu é que não vi. Escolhi este com vídeo, porque mesmo na selva há coisas com piada. No final, tudo voltar ao normal é genial!

sexta-feira, agosto 13, 2010

Na mesa com


Mia Wallace

quinta-feira, agosto 12, 2010

Na varanda com



Annie Hall

As minhas férias... de um dia

É engraçado os momentos pelos quais a vida passa... Estou a sair de um grande momento algo negro da minha vida. Ando mais feliz, mesmo que o trabalho esteja difícil, e que ande a dormir pouco, dei para mim a prioridade ao trabalho mas também à família e amigos. Tenho sempre de arranjar tempo para todos, mesmo que signifique dormir menos.

Estas são as alturas para arranjar amigos novos, quem conseguir aturar um tipo que vêm pouco e que só telefona de vez em quando. E para reatar velhas amizades. Fui de férias a precisar de dormir e de estar um pouco com os meus pais. Mas feliz.

É engraçado os momentos repentinos porque a vida passa... parti para Moledo na terça-feira, passei um belo dia em Moledo na quarta-feira, e à noite recebo um telefonema - Miguel a tua gata fugiu. - Ainda gracejei um "estás no gozo", mas a voz responsável do Alex não dava que enganar. Ela tinha fugido mesmo. Depressão rapidamente instalada. Passei mal a noite, e acordei de manhã decidido a ir para Lisboa.

Acordei às oito, fui passear os meus cães, que andam muito bem entregues ao namorado da minha irmã, que é um santo. E preparei-me para ir embora. Apanhei o comboio em Caminha, fui para o Porto, do Porto a Lisboa foi um tirinho, fui apanhar o metro, chegar a casa dos pais, pegar no carro, chegar a casa, pousar as coisas, dar meia volta a casa e deparar-me com a minha gata a miar aos meus pés! VAI PÓ CARALHO DEPRESSÃO DE MERDA!!!

Peguei nela, dei-lhe banho, pôs uns discos do meu pai a tocar e aqui estou eu, todo feliz a escrever este post!

Ainda por cima, ontem tive um dia perfeito de férias. A minha mãe acordou-me aos beijos. Depois de, por milagre, não me ter obrigado a ir para a praia de manhã, deixando-me a dormir. Depois fomos comer marisquinho para o Valadares, à tarde fui passear mais os cães, e directos para Ponte Lima! Comer rojões com arroz de sarrabulho! O melhor arroz de sarrabulho do mundo! Deu tempo para umas jogatanas de cartas, umas conversas com o meu pai, uns passeios com a minha mãe, a companhia da minha irmã, do namorado e da Isabel. Belo dia de férias. Não podia pedir mais. Não fossem os fogos e o telefonema da minha gata e tinha sido o dia perfeito.

Tirando os malditos fogos - a minha gata já está aqui, ao meu colo, meia chateada do banho, meia com saudades de mim.

Estou mesmo bem...

Lembrar Aguardela

Foi em 1993. Um concerto num local completamente atípico para mim e, presumo, para os Sitiados: nos Salesianos. Estava cá fora, à espera dos pais de uma amiga da minha prima, quando um carro vermelho trava mesmo ao pé de mim. A loira ao volante abre o vidro e para gáudio dos outros quatro ocupantes - e para meu gáudio - do pequeno e, se bem que me lembro, fumegante bólide, dispara:

Olá, dás-me um autografo?

Não sei bem com que ar fiquei – de estúpido? - mas hoje pagava para ver. Ao lado da Sandra, a loira, estava o João. Como até ao final da sua vida, imagino eu facilmente. Aqui há umas semanas, lembrei-me dele, do João Aguardela.



"Junto ao Rio", no Rock Rendez Vouz, em 1988, antes do "sucesso". Uma música para quem gosta do Tejo que cheira mal, como eu. Os insultos, já agora, são impagáveis. Este momento é contemporâneo da “Noite”, a música ao mesmo tempo mais e menos conhecida dos Sitiados. Percebe-se porquê - e percebe-se outras coisas também - nestas palavras de Ricardo Alexandre no site Megafone 5: “Na colectânea "Registos" do Rock Rendez Vous aparece o tema "A Noite" que, anos mais tarde seria gravado pelo colectivo Resistência, tornando-se um mega-êxito. João Aguardela ouviu a versão, pela primeira vez, quando já abandonava o recinto da Festa do Avante, ao lado de amigos, em 1991. Deu uma gargalhada e seguiu viagem.”

Os Sitiados eram uma banda festa. Com certeza que foram os concertos mais boémios e delirantes a que assisti. Assistir não será bem o termo para descrever a experiência: aquilo era uma espécie de furacão que levava tudo atrás. A música era de loucos da esquina de bairro ao cair da noite com o Rio Tejo como pano de fundo – e isso chegava-me muito bem, mesmo sem o saber na altura. Continuo a gostar muito do primeiro disco deles, cheira a tasca, a bairro, a rio e a Lisboa e às suas personagens. Gosto de quase todas as músicas mas especialmente do "Soldado",  da “Pérola Negra” – que era a cobiça todos os homens mas eu gostava especialmente dela - “E Ela Cega” - a propósito, vejam o que escreve sobre o seu carro quem postou o vídeo desta música no You Tube, é revelador de uma época que já lá vai.

Até ao quarto disco, fui ouvindo os Sitiados. A festa continuava e estávamos todos convidados.



Festa do Avante, 1992. "Vida", "A Cabana do Pai Tomás" e "Vida de Marinheiro". Era um chaval mas andava para ali aos saltos. Quem é que não estava para ali aos saltos?

Depois, muito depois, ao longo de uma década que passou num abrir e fechar de olhos, percebi que Aguardela andava a fazer coisas diferentes e de que eu gostava bastante. Acompanhei sempre, muito ao longe. Havia tempo, não?




“Aboio”, Megafone



"Perfilados de medo", Linha da Frente





Remix de "Early Fear" dos Haus En Facto, Groove Box (João Aguardela)



“Monotone”, A Naifa

No último álbum da Naifa,  de 2008, “Uma Inocente Inclinação para o Mal”,  as letras vêm assinadas por Maria Rodrigues Teixeira -  nome da avó de Aguardela - que só já depois deste ter desaparecido (em 2009) se soube que tinham sido por ele escritas  Um derradeiro pormenor de carácter e descrição deste incessante criativo, cientista dos ritmos e português apaixonado. Passados tantos anos sobre aquela noite de 1993, percebo que ainda tenho tanto para descobrir sobre João Aguardela.

Pena que já não o posso acompanhar de perto.

P.S: Sandra, eterna companheira do João e acordeonista dos Sitiados, ergueu com os amigos de Aguardela a Asssociação Megafone 5 para "celebrar, homenagear e difundir o trabalho e as ideias de João Aguardela." Só me resta agradecer.

terça-feira, agosto 10, 2010

Refresco de café

The Tarantino Mixtape from Eclectic Method on Vimeo.


E a meio disto fui à procura do meu telemóvel. É que anda para ali o meu toque e, magnetizado com esta cassete pirata, fui ver quem é que me estava a ligar. É isso, estou com calor. Vou beber um refresco de café.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Portugal, 40º graus


Um dia passeava numa serra imensa, sem fim à vista. Começava na Beira Alta e estendia-se, poderosa, com tentáculos de verde e arcaboiço de rocha, até ao Douro Litoral. No meio do nada, lá no alto, quando as montanhas se acalmavam em bucólicas planícies, um túmulo megalítico pasmou-me. 
Como é que alguém foi ali morrer? Como é que alguém foi ali enterrado? 
Idilicamente, sim, aquela seria a sepultura perfeita, por serras e montanhas, simetricamente alinhada com o horizonte onde o sol se deitava precisamente à hora do meu pasmo, lançando pelo ar cores que eu não sabia existirem. Mas como e porquê é que chegaram ali?

Se os vestígios arqueológicos eram surpreendentemente intensos, tudo o resto era ainda mais, ainda que embutido num lugar onde, achava eu, Judas havia deixado as calças. A Serra da Gralheira e a maior concentração de víboras do país; o arroz de feijão na aldeia da Gralheira, as Capuchinhas, artesãs de Campo de Benfeito, lugar onde bebi a água mais pura que jamais vou beber na vida; enfim, muita coisa boa para um verdadeiro asno lisboeta que por esses mesmos dias subiu ao Caramulinho - mais a sul - só para ver o mar. 

Dessa altura lembro-me também de ver por ali muitos incêndios. Eram recorrentes desde há muitos anos mas diziam-me que a frequência e intensidade diminuíra, com o apoio aéreo constante no Aeródromo de Viseu. Durante muitos anos – há muitos anos – foram os pastores que um pouco por todo o lado faziam grandes queimadas para renovar as pastagens e provocavam incêndios. Depois foram os foguetes das festas populares. Depois foi a incúria das pessoas. Agora, parece que é fado mas eu quero saber de quem é a culpa.

Infelizmente, não é dos maluquinhos que ateiam os fogos. É algo de quase patriótico: fomentar a economia. Mas, como habitualmente no nosso país, também noutras circunstâncias e contextos é fomentar a economia - curiosamente, não paralela - de um carrossel onde andam sempre os mesmos. As terras ardem e desvalorizam-se. Árvores autóctones ficam reduzidas a cinzas e plantam-se eucaliptais gigantes. Compram-se terras mais baratas. Constrói-se mais barato. Produz-se madeira mais rapidamente. E muito mais barato. Ao preço da chuva, não, ao preço do incêndio. Incêndio, negócio. Negócio, escuro. Portugal está um país muito mais escuro.

E isto passa, incêndio após incêndio, ano após ano, reportagens trágicas após reportagens trágicas, declarações de autarcas após declarações de autarcas, comoção colectiva das populações após comoção colectiva das populações.
Porque, assente a nuvem de cinza e o cheiro a queimado, as populações elegem os mesmos autarcas que licenciam os mesmos negócios que não são denunciados pela mesmas reportagens. E alguém, nunca se percebe bem como, continua a ganhar com tudo isto.

Para mim é triste que tenha ardido a Serra da Gralheira e que ¼ da área florestal de São Pedro do Sul tenha sido pulverizada do mapa. Mais ainda há-de ser para quem lá cresceu, para quem lá vive e para quem depende da Serra e da natureza naquela região. Mais triste ainda é ver um pais cujo património e recursos naturais têm que ser traves mestres na sua economia – não só porque na realidade não há muito mais por onde pegar mas também porque estes são excepcionais – não aprender a lição.

Niilismo


"Todos queremos o mesmo da vida: Amor. Perdão. Chocolate."  Se a Thirteen o diz, quem sou eu para discordar?

Aos 20 IV

Aos vinte não ajudei ninguém, verdadeiramente ajudar, fazer a diferença na vida dessa pessoa. Aos trinta vou tentar fazê-lo.

Aos vinte estive apaixonado três vezes. Aos vinte desapaixonei-me três vezes. Apercebi-me que para mim uma paixão pode durar uma eternidade, mas que a traição de sentimentos, as dúvidas e a incertezas me fazem desapaixonar-me de um segundo para o outro.

Aos vinte lesionei-me no coxa direita. Uma lesão grave que me levou ao hospital. Estive duas horas e meia para ser atendido. Quando finalmente me atenderam a médica era linda. Mas linda de morrer. Eu a fazer-me de forte, ela a dizer-me que eu precisava de levar duas injecções. De um segundo para o outro, deixou de ser linda, para ser feia, os dedos ficaram velhos, os olhos sem expressão. O riso era banal. E eu vou continuar com fobia a agulhas.

Aos vinte deixei coisas por fazer. Devia ter feito mais do que fiz.

Aos vinte surfei muito, mas podia ter surfado mais.

Aos vinte gostei de um cão como gosto de um amigo. O meu Miles é um dos meus melhores amigos. Um cão... por vezes olho para ele e emociono-me, por vezes olho para ele e acho que ele merecia que eu lhe ligasse mais, que arranjasse maneira de viver com ele. O meu outro cão também é porreiro, mas é um cão normal. O Miles é um cão mágico.

Aos vinte podia ter sido mais amigo de algumas pessoas. Podia não ter perdido algumas amizades que sempre foram importantes para mim. Perdi mais amigos do que devia, arranjei menos amigos do que podia.

Aos vinte passei horas no hospital, pelas razões mais estúpidas. Sempre lesões musculares. A não ser uma. Porque aos vinte decidi que tinha de deixar a faculdade e ir trabalhar. Porque andava a bater com a cabeça nas paredes, porque não estava a ir a lado nenhum. Na altura em que saí faltavam-me duas cadeiras para terminar. Pensar voltar para as terminar enjoa-me. Mais facilmente entro para outro curso. Três noites antes de decidir que tinha de abandonar a faculdade, tive um ataque de pânico que me levou ao hospital. Deram-me uma droga que me pôs a dormir durante dois dias inteiros. Quando acordei fiz o meu primeiro e último currículo, que acabou por não ser necessário.

Aos vinte tive mais um ou outro ataque de pânico, perfeitamente controlado por mim próprio.

Aos vinte tive duas insónias que me duraram uma semana, cada uma. Calhou de me saírem no carro à minha frente por coisas completamente estúpidas, que os envolviam a eles e não a mim. Eu só me ri. Não foi bonito.

Aos vinte soube como viver acompanhado e como viver sozinho. Aprendi a baixar a tampa da sanita, e aprendi a encher o frigorífico de cerveja, respectivamente.

Têm de ser grandes para só aqueles que conseguem ler muito o pegarem. O último antes de ir de férias. Férias! Aos vinte fiquei cinco anos sem fazer férias.

domingo, agosto 08, 2010

O momento Mestre Zen do dia

Também no Ondas.

Hoje estive a surfar cinco horas de seguida. Já o fiz antes, mas pensava que os meus dias de surfar cinco horas seguidas a apanhar ondas estavam para trás de mim. Mas não. Saí cansado. Os meus olhos pesam enquanto escrevo. Tenho umas coisas que quero fazer, e é sempre bom escrever para um blogue uns minutos, para escrevermos coisas completamente diferente a seguir.

Portanto hoje vou falar do meu "momento mestre ZEN" do dia, nas minhas cinco horas de surf, que já ninguém me as tira.

Hoje estava a surfar numa onda que tem uma irmã, do outro lado de um pontão natural. A direita onde me encontrava eu e o meu amigo, do outro lado um tipo sozinho, na esquerda. O tipo sozinho na esquerda não parava de apanhar ondas, nós não estávamos muito mal, mas sendo a nossa direita um pouco mais comprida, apanhávamos uma onda, enquanto ele apanhava três. Algumas das esquerdas, bem mais cavadas, faziam-nos invejar a quantidade massacrante de ondas que ele apanhava.

Na altura da maré cheia, as ondas pararam um pouco, junto à pedra já não se lançava uma onda há muito. Estávamos mais no inside, mas bem mais afastados da pedra. As ondas junto à pedra são claramente melhores do que no sítio onde estávamos a apanhá-las. Esperávamos que a maré vazasse novamente, para voltar para lá.

O tipo da prancha branca com as bordas pintadas de vermelho, decide que a esquerda já tinha dado o suficiente, e sai pelo lado onde estávamos. Assim que atravessa o calhau, um enorme set aparece, ele fica imediatamente em posição para apanhar a direita. Eu olho para ele, viro-me para o Alex e digo - Olha-me a moral deste tipo!! - Enquanto me ria do momento quase caricato. O tipo da prancha branca com as bordas vermelhas, ou seriam cor-de-laranja?, ouve o que eu digo, e com um rasgado sorriso de orelha a orelhas grita - Então? Dá ou não dá?

Porra! Eu nos últimos tempos surfei mais ondas do que em seis meses. Têm sido surfadas atrás de surfadas, ondas atrás de ondas. Mas aquele tipo de sintonia com o mar? É que a onda nunca mais apareceu, a não ser passado para aí uma hora, em que apareceu fugazmente, e depois calou-se.

Sintonia. "O mestre do zen"!

Ao contrário deste tipo, um que apareceu mais tarde, apareceu e parecia resignado a partilhar de uma forma civilizada as ondas. Quando lhe deu uma cramoqueira e decidiu dar a volta ao meu amigo, espetou-se nessa onda, e espetou-se nas ondas todas a seguir, até desistir.

Hoje o mar estava cheio de karma... É bom surfar mar com metro, glass, e com karma, o pessoal porreiro dá-se sempre bem, podem não ser "o mestre do zen", mas dão-se sempre bem.

Aos 20 III

E aos vinte apanhei bebedeiras descomunais, mas nunca como antes dos vinte. Aos vinte bebi bebidas que não gostei, e aos vinte provei bebidas que vou gostar para sempre.

Aos vinte fui a algumas das melhores festas de sempre. E fui a algumas das piores festas de sempre. Mas aos vinte passei pela minha melhor noite de sempre.

Aos vinte apaixonei-me três vezes. Ou mais se contarmos com mais vezes a uma só rapariga. Aos vinte percebi que a paixão é sobrevalorizada. Que a amizade, a companhia e o afecto são aquilo que procuro no futuro.

Aos vinte entendi muitas das músicas que já gostava antes. E descobri muitas mais. Aos vinte viciei-me em cinema, e aos vinte decidi que tinha três ou quatro coisas a fazer antes de morrer.

Antes dos vinte achava que ia morrer aos 33. Os vinte não me demoveram, a entrada dos trinta também não. Tenho três anos para fazer alguma coisa da minha vida.

Aos vinte entendi o que era arte. Aos vinte quis fazer parte dela. Aos vinte pintei o meu primeiro e último quatro. Aos vinte destruí o meu primeiro e último quatro. Aos vinte destruí uns quatro romances. Aos vinte apaixonei-me por uns cinco ou seis romances.

Aos vinte li menos do que devia. Joguei computador mais do que devia. Ouvi música menos do que devia, mas mais seria quase impossível. Vi filmes menos do que devia, mas mais seria mesmo impossível.

Aos vinte desisti de escrever poesia. Aos trinta já não sei escrever poesia. Secou.

Aos vinte ia morrendo umas quantas vezes. Foi aos vinte que me piquei pela última vez num carro com alguém. Voando sobre o Saldanha depois de um salto nos carris do eléctrico. Vim a trinta até a casa. Hoje rio-me de quem tenta picar-se comigo.

Foi aos vinte que decidi que o conforto era mais importante que a aparência. Ou terá sido antes?

Aos trinta continuei a crescer como amigo do Manel.

Aos vinte fui um embuste. Aos vinte tive os meus momentos.

Resistente

António Dias Lourenço (1915-2010)















"O Segredo", sobre a fuga de Peniche (1960).

Ler mais sobre Dias Lourenço no Tempo das Cerejas.

sábado, agosto 07, 2010

Aos 20 II

Foi aos vinte que dei boleia a uma ex-toxicodependente, consciente dos seus erros, preocupada em cuidar do seu filho, e de dar valor ao homem que não olhou ao seu passado, e preferiu ver o seu futuro, dela, dele, do pequeno e dos três. Mostrou-me outro caminho para LIsboa, que ainda hoje uso, e penso sempre nela quando o faço. É engraçado como uma pessoa que passou 30 minutos no meu carro, pode marcar uma vida numa pequena coisa com escolher um caminho para fugir ao preço da auto-estrada e ao trânsito da IC-19.

Foi aos vinte que dei boleia ao jardineiro da junta de freguesia da Ericeira. Até ao Colombo, onde iria ter um jantar de negócios que iria permitir resgatar o seu carro da oficina, que não conseguia pagar-lhe o que devia, depois de um acidente de automóvel, que envolveu uma rapariga, um cigarro apressado para o estilo, um isqueiro esquivo, e um outro condutor desprevenido.

Foi aos vinte que dei boleia a uma procissão cabo verdeana. Vestidas de preto as pretas não falavam muito. A mais nova sentada ao meu lado tentava dar um dedo de conversa, visto que o carro delas ficou arreado numa bomba de gasolina. A mais nova apressou-se a dizer que a urgência era grave, que a sua mãe não podia perder o avião, que a avó estava no gelo. Desculpe? Disse no gelo? Sim, no gelo. Que ali faz calor. Só aí percebi que a procissão era um enterro. Ainda me tentaram pagar o favor com um par de moedas de dois euros, e foram muitos os beijos distribuídos, menos da miúda gorda que se sentou atrás de mim no carro, que não parou de falar ao telemóvel em crioulo.

Foi aos 20 que resgatei alguns surfistas da sua sorte, abandonada, em parques de estacionamento. O segurança do Queens que o levei à polícia depois de lhe terem roubado o carro. Ou o atadinho de LIsboa que ficou preso nos aivados depois de ter perdido a chave de plástico do seu carro no mar.

Foi aos vinte que passei uma década sem ser assaltado.

FOi aos vinte que podia ser um homem melhor do que sou agora. É uma luta.

Foi aos vinte que passei um dia inteiro com a minha avó, já num estado avançado de demência, e guardo esse dia no meu coração como um dos melhores dias da minha vida. Levei-a a almoçar, e levei-a a tomar o lanche, e fui jantar com ela. E não foi preciso relembrá-la assim tantas vezes com quem estava. Concentravamo-nos num passado mais antigo, onde se lembrava de tudo.

A minha avô foi a melhor pessoa que eu conheci. Aos vinte, tive a certeza disso.

Aos vinte falei pela última vez ao telefone com os meus dois avôs. No dia em que morreram. Ouvi a voz deles pela última vez. Recordo-me como se fosse hoje. Sei que gostaram de ouvir a minha. Sei que sim...

Aos vinte ri-me que nem um perdido. E chorei como se não houvesse mais nada para chorar.

Aos vinte tentei não magoar ninguém, e provavelmente falhei redondamente.

Também aos vinte decidi começar a cortar o meu próprio cabelo...

Aos vinte quis ser pai. E aos vinte percebi que se calhar isso nunca vai acontecer.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Até Amanhã Camaradas

Há umas semanas acabei de ler o Até Amanhã Camaradas do Manuel Tiago. Eu não diria que foi uma obrigação, mas foi sem dúvida um passo de investigação. E não é que fiquei muito surpreendido! Mas muito surpreendido mesmo!

A primeira parte boa daquele livro é que é extremamente fácil de ler. Está muito bem organizado. Parece um esquema, tudo encaixa. Mas neste esquema cai uma forma muito criativa de contar várias histórias.

Eu li aquele livro, sem tentar ter em conta a história real, só ter em conta o livro de ficção, que como é evidente é o resultado de uma experiência de anos na clandestinidade.

Apesar das dificuldades, dos heróis, anti-heróis, dos malfeitores que não têm maneira de perder, a não ser na cabeça das pessoas, há uma humanidade muito grande em partes que não contava que houvesse.

Numa circunstância um dos camaradas é preso, e violentamente espancado até perder os dentes todos, ficar com a cara em polpa. Mas esse camarada olha para os seus torturadores com desprezo, não ponto a possibilidade de lhes dizer seja o que for. Pelo desprezo que lhes tem. Já noutro caso, violento, mas não tanto, um dos camaradas "porta-se mal", e é a pior reprimenda que leva, porque todos sabiam na altura que havia quem resistisse, e quem cedesse, era preciso portanto nunca dar muito poder e conhecimento a um só camarada.

É uma época que ainda hoje me fascina. É uma luta que quase invejo não ter participado nela, mas ao mesmo tempo vejo a sorte de não o ter feito, e agradeço profundamente a quem a fez por mim.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Aos 20 I

Um texto de várias páginas, escritas na noite em que fiz 30 anos. Publicar aqui, para não o perder nos meus documentos pessoais algo desorganizados. E assim não tenho de usar youtube.

Sim! Fiz 30. Jà não tenho 20. Já não tenho a idade em que estive na faculdade. Já não tenho a idade em que descobri que o amor leva tudo, que o amor consome, que o amor é uma energia em si só.

Aos vinte descobri o auto-controle. Aos vinte deixei de olhar para o lado. Descobri o que é uma companheira e o que é ser um companheiro. Aos vinte descobri o que é um coração partido. O que é um futuro incerto. O que é ficar completamente vulnerável, o que é armar defesas.

Aos vinte descobri o que é a perda de uma pessoa que amamos mais que tudo, o que é perder duas pessoas que amei mais que tudo, o que é perder três pessoas que amei mais que tudo. Perdi os meus avós antes dos trinta. Perdi os meus avós e sinto falta hoje mesmo de lhes telefonar, de ir ter com eles, de lhes dizer como estou, e ver-lhes um sorriso do outro lado, porque sabiam mais do que eu, que um drama de hoje, é um sorriso irónico de amanhã.

Aos vinte descobri o que é trabalhar. O que é responsabilidade. O que é desresponsabilizar. Ou desresponsabilizar-me.

Aos vinte umas quantas músicas salvaram-me a vida. Aos vinte uns quantos filmes fizeram o mesmo por mim. Alguns com um murro no estômago. Mexe-te! Mexe-te!

Aos vinte descobri o melhor prazer do desporto. Aos vinte tornei-me surfista, entrei na classe, por pior ou melhor que seja. Aos vinte salvei mais vidas no mar do que antes. Aos vinte nunca pôs nenhuma vida em risco.

Aos vinte dei mais boleias pitorescas do que alguma vês imaginei dar. Um dia destes em Sintra vi um grupo de tipos cheios de malas de acampamento. Disse-lhes para entrarem. Os dois despediram-se dos outros dois atrás. Eu perguntei porque raio é que não vinham os quatro. Que não, que era muita gente. Coloquei a minha prancha no tejadilho, perto da praia das maçãs, e enfiei as malas deles no carro, juntamente com o pessoal todo, os quatro.

Vinha da Ericeira. Dei-lhes um pão da Roulotte "Pão com chouriço e sem", e pu-los a ouvir Carlos Paredes. Eles queriam ir para o centro de Sintra. Mas entretanto começamos a falar, eu a explicar quem era o Carlos Paredes, ele ficaram doidos com aquilo, conversa levou a conversa, e levei-os ao mundial de Bodyboard na Praia Grande. Onde no dia a seguir iria entrevistar o Mike Stewart.

Passámos algum tempo lá. Eles eram de uma terra nórdica qualquer de que me esqueci do nome. Ou talvez fossem da Jugoslávia. Mas como foi depois de 2006, talvez fossem da Sérvia.

Depois lá fomos para Sintra, onde tirámos uma fotografias, despediram-se de mim com abraços e beijos, porque partiam nesse mesmo dia, e que tinham pena de eu não lhes tivesse mostrado Lisboa.

Aos vinte, sempre que sozinho no carro, nunca recusei uma boleia.

Pausa para momento pop

Fosse eu um gajo de festivais e ia ao Festival Sudoeste ver a M.I.A. Mas Sudoeste, para mim, é só surf. E odeio pó. E óculos de sol retro multi-cor. E réplicas vivas de anúncios da Sagres ou da Superbock ou da Optimus ou dos Morangos com Açúcar ou lá o que é aquilo. É tudo demasiado igual, demasiado expectável, demasiado feel good movie.



Pop Global Anti-Global



Aquecimento Global Anti-Global

M.I.A, Born Free from ROMAIN-GAVRAS on Vimeo.


Miúda Global Anti-Global

Eu cá gosto da M.I.A. Fosse eu um gajo de festivais e ia ao Festival Sudoeste vê-la. Mas Sudoeste, para mim, é só surf.

Um pequeno pormenor



Como cada vez vejo menos televisão - não me lembro de nos últimos dois meses ver mais do que cinco minutos seguidos de qualquer televisão nacional generalista ou por cabo - mais prazer tenho em olhar para o ecrã quando chega a altura de o fazer.
E ontem à noite, enquanto via um dos mais incríveis episódios do House que jamais vi, saltei do sofá com um detalhe subtil, daqueles que me enche as medidas em qualquer história, em qualquer personagem, em qualquer pessoa, em qualquer situação: um pequeno pormenor.

O telemóvel de House toca e qual é o toque? Não podia ser, no meio de todo aquele clima negro. E toca de novo, mais à frente, directamente do coração das trevas do episódio. Seria mesmo? Era.

terça-feira, agosto 03, 2010

Estás proibido!

Não tocas no youtube durante uma semana estás a ouvir! Uma semana!! Vai ouvir discos em vinil o resto do dia, e o resto da semana stereo! Só stereo! Esse mono ainda te dá cabo da cabeça! UMA SEMANA!!!

Mais uma ensinadela



Á conta do youtube...







Pronto

Terminei por hoje. Já não me apetece mais. VOu para a cama ouvir isto.



Tenho uma história sobre o Astor Piazzolla. Qualquer dia...

Ajudem-me



Nos próximos dias, tenho de me esquecer disto... é que eu nem quero espreitar a ver se há ou não cds...

segunda-feira, agosto 02, 2010

Eu sei



Estou sempre a amaldiçoar o youtube e as fracas qualidades de som, e das músicas interrompidas a meio. Mas agora a colocar aqueles três videos, descobro isto. E eu sem dinheiro para comprar cds...

No seguimento

Adoro Gershwin! E lá fiquei eu um dia todo a ouvir um dos compositores mais interessantes de todos os tempos.



Têm de passar muito rapidamente para o dois!!! Estejam atentos... estejam atentos... rápido! AGORA! Arranjem mas é o CD!



Agora a terceira... Atentos... atentos... é ago... ainda não! AGORA!! Ufa que isto cansa... Já disse para arranjarem o CD não já?



Mas qual é a lógia daquele "h" no nome dele. É que escrevo sempre Gerswin. Epá... pronto. É Gershwin! George.

Simples, Miguel, Simples

Tive um professor durante uns anos, que mudou a minha vida, mostrou-me como é que se pensava de uma forma mais estruturada. O Marcello mostrou-me muita coisa que eu não fazia ideia estar dentro de mim. Mas duas lições ele deu-mas com redobrado enfase na importância.

1ª - Não Miguel, tu não pensas, tu achas, quem pensa aqui sou eu!

Eu ria-me, porque, naturalmente, eu tinha acabado de dizer um disparate, e antes tinha dito. Eu penso que o Kant, tal e tal...

2ª - Miguel... vá... simples, Miguel, simples.

Depois do meu último post, pronto - simples, Miguel, simples. Deixo só isto:

36 meses



Durante algum tempo, tempo demais, não tive o Manhattan do Woody Allen na minha colecção. É um dos meus filmes preferidos, e sim, tenho muitos. Mas é um dos raros filmes em que fico deliciado pela beleza de tudo o que lá está presente. Os planos, a música, os diálogos, e a cara de Mariel Hemingway.


Tracy's face...

É que pus-me a pensar, e realmente, eu gosto de mulheres bonitas, mas nunca fico muito impressionado com mulheres em ecrãs. Eu gosto do "E Deus criou a mulher" tanto quanto o próximo, mas estava a tentar puxar pela cabeça, por mulheres em filmes que me tivesses impressionado verdadeiramente pela beleza. E não há mais do que a cara da Tracy no Manahthan, mesmo o filme da Sophia Coppola, o "lost in Translation" eu gosto muito do filme, gosto muito do papel da Scarlett, mas porra, o Bill Murray é a grande recordação com que fico.



Não sou um tipo romântico. Nem por momentos. Mas em filmes registo também que são sempre os homens a ser românticos. As mulheres gostam de ser pôr em posição para eles o serem...

Que engraçado... esta merda deste post não era para ser nada disto. Hoje vou ver o Manhattan.
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